2022-11-02
A QUINGENTÉSIMA e O LOUCO


Risoleta C Pinto Pedro





Há umas semanas, completei, num outro suporte onde escrevo, um periódico de uma das minhas terras, a quadringentésima quadragésima quarta crónica, a que dei sobretudo um valor quase geométrico, mas também afectivo, ético e estético, que me valeu, então, algumas reflexões. Entretanto, por causa desse número 444, tendo sido já ultrapassado em mais duas ou três crónicas, sou alertada para o facto de quase simultaneamente atingir outro número interessante, até em longevidade, na “Quarta-Crescente”, que cumpre, com este mesmo texto que agora escrevo, o número 500. Celebramos hoje, caro leitor, um aniversário de que me honro. É uma longa e estimulante caminhada que se iniciou semanalmente, passou depois a uma periodicidade quinzenal, e recentemente assumiu a regularidade mensal. Não alargaremos mais o tempo entre crónicas, um mês é o mínimo que tenho de obrigação com este encontro, obrigação que também é prazer e uma honra. Assim o sinto. A honorável Unicepe e os seus especiais leitores justificam, apesar do trabalho que foi crescendo ao longo dos anos e me impede a disponibilidade inicial, que uma parte de mim, mensalmente, se concentre no Norte, no Porto, na sua beleza, história, bravura, inteireza e genuinidade. E se nem sempre o Porto é o tema, de alguma forma é diferente o meu respirar quando escrevo a pensar no Douro, ou a pensar no Tejo. Comecei por falar do Porto na primeira crónica, em Abril de 2005: o Porto tal como o via a partir do meu interior. Era interno, porque visto com olhos de dentro. Contudo, é assim que continuo a olhar a cidade nobre, como pode ser verificado pela leitura de algumas últimas crónicas, decorrentes de recente visita. Percorrer as crónicas a partir dessa outra primeira é como fazer o percurso-síntese do meu olhar pela vida ao longo destes dezassete anos. Ali está, por exemplo, em “Pai pássaro”, o meu pai no princípio da sua fragilidade, sem que eu me apercebesse das repercussões dramáticas que os seus hesitantes passos que inspiraram a crónica, viriam a ter. É uma crónica que dói muito por dentro, talvez de todas a que mais dói. Outras, talvez a maioria, sorriem-me. E agora, aos dezassete anos, a quingentésima. Em Abril de 2025 cumpriremos vinte anos, mas não completaremos a viagem. Prossigamos serenamente ao encontro dos anos. Aproveito simbolicamente esta crónica de número redondo para agradecer o colo que é a Unicepe, que generosamente tem acolhido estes despretensiosos textos, e a si, leitor(a), a benévola parceria. Igualmente a companhia dos meus prestigiosos companheiros de página, de quem sou leitora, com respeito e admiração.

Mas não termina aqui a crónica. Devo uma explicação pelo estranho título. Que tem a O Louco a ver com este número? Aparentemente nada, profundamente tudo. O Louco a que me refiro é a carta do Tarot que consoante a versão é apresentada como zero ou XXII. Como símbolo que é, o infinito impede que seja definido, mas podemos olhá-lo e ver algumas das suas dimensões. É alguém que caminha, pode ser um jovem ou um vagabundo, leva uma pequeníssima trouxa ao ombro e evoca a liberdade. Contudo, é seguido por um cão que lhe morde a veste, e numa das versões caminha alegre e perigosamente para o abismo sem parecer vê-lo. Esta carta mostra-me, dramaticamente, a Humanidade no seu caminho rumo à extinção, fingindo não ver e ignorando os sinais, aqui representados pelo cão. É alguém muito jovem, tal como a nossa idade emocional enquanto colectivo. Os adolescentes têm um sentimento de eternidade que os leva a arriscar a vida como se fossem gatos. Esta humanidade comporta-se como adolescente à beira do abismo sem o ver, e ainda recentemente ouvi um dos programas de Júlio Machado Vaz onde discorre, em diálogo com a jornalista, em tom de sereno desespero, sobre este “alegre” caminhar para o abismo. Aconselho a audição do podcast, que não será difícil encontrar na página da RDP1. É nesta mesma disposição, serenamente desesperada, que prosseguirei este diálogo consigo, leitor(a), esperando continuar a somar aniversários desta crónica, mas não sabendo como, a avaliar pelo comportamento suicida que contemplo, de que, impotentemente, sou cúmplice. Escrevo esta crónica em quarto-crescente, depois de passear olhando a Lua, essa tão antiga amiga, e perscruto-a procurando saber se sabe mais do que nós. Discreta como sempre, diz-me que de nada nos adiantaria sabermos o que sabemos. E assim me silencia. Mas não há de calar-se esta crónica, apesar da minha ignorância. Afinal, é por isso que escrevo.


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