2014-06-04



Risoleta C Pinto Pedro


Por outro lado



Esta crónica baseia-se numa notícia que já não sei se vi ou ouvi (muitas vezes as imagens inventadas misturam-se, na minha imaginação, com as reais) que referia uma história recente sobre a implosão de um edifício. Acrescentava, como facto óbvio e incontornável, que fora uma criança de seis anos portadora de cancro, que carregara no botão. Claro que não seria preciso dizer que esta história se passa nos Estados Unidos.

Deixou-me de tal modo perplexa que não consigo emitir uma (ia acrescentar única, mas seria redundante) opinião, porque, se por um lado compreendo uma certa e desajeitada forma de compensar um inocente por algo que lhe aconteceu, entendendo o facto como uma espécie de castigo sem rosto, por outro lado não compreendo como é que deitar abaixo uma coisa que deu tanto trabalho a construir a tanta gente (parto do princípio que sim, embora nunca tenha construído um prédio) pode compensar seja quem for seja do que for, muito menos uma criança, de uma doença.

Se por um lado a uma criança doente a nossa própria má consciência em relação á forma como são ainda tratadas as crianças na nossa sociedade nos impulsiona a dar-lhes tudo. A prometer-lhes até o sol, como os pais que, para compensarem os filhos da sua ausência ou qualidade da presença afogam os filhos com brinquedos, por outro pensava que culturalmente já tínhamos evoluído o suficiente para perceber que o que uma criança com uma doença destas necessita não é de carregar um botão para deitar um prédio abaixo.

Se por um lado o carregar no botão pode dar-lhe algo de parecido com um sentimento de poder, que para uma criança doente, transferindo a emoção para a sua saúde pode ter o mérito de lhe criar um ânimo novo, por outro lado cria aqui o equívoco de que o poder existe sobre o que é exterior a nós, quando o verdadeiro poder está dentro e atua dentro. Em primeiro lugar. O resto vem por arrastamento.

Se por um lado pode ser exaltante para uma criança sentir-se uma personagem de filme, toda poderosa sobre o criar e o destruir, por outro cria o equívoco de que a vida é um filme. Este gesto ignora que não basta, nem é aconselhável, carregar num botão que alguém nos põe à frente e que tem o poder de destruir num minuto, o que levou meses ou anos a construir.

Se por um lado aquela criança necessita de se sentir importante e amada, por outro lado não sei se quando passar o momento apocalíptico (desculpem, mas recuso-me a escrever esta palavra sem “p”), e a vida voltar à rotina e aos tratamentos, o sentimento de frustração não poderá ser maior.

Se por um lado o edifício pode representar, simbolicamente, o cancro, o gesto mágico de carregar no botão e destruir o que o destrói, se para um adulto pode ser poderoso, por outro lado, no caso de uma criança, pode ser profundamente traumático por incompreensível e despido de consequências. Assim sendo, remeto para o meu arquivo de imagens (vi? ouvi?) um edifício a desfazer-se em pó e uma criança frágil e toda poderosa, devido à má-consciência de uma sociedade, a carregar num botão.

Como o nosso cérebro não sabe distinguir uma imagem real de outra apenas imaginada, decido agora imaginar essa e todas as crianças e todos os seres que sofrem a carregarem num botão interno, aquele que desfaz as dores e as emoções estagnadas de tão antigas e o sol a entrar por todos os poros trazendo saúde e vida, a todas as casas rodeadas de verde, pessoas sorridentes e animais felizes. E edifícios em pé. Rodeados de jardins, fontes, lagos e espaços amplos. Com crianças saudáveis a brincar.

risoletacpintopedro@gmail.com

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