2008-08-06
QUARTA-CRESCENTE


Risoleta Pinto Pedro


Heroínas*





Hoje renuncio à ficção. Contarei uma história verdadeira acerca de duas heroínas e de um não herói. Não lhe chamo anti-herói porque pela tradição da ficção o anti-herói tem ainda qualquer coisa do herói. Coisa que o não herói não possui. O anti-herói renuncia ao heroísmo, é esse o seu heroísmo, o que não é de desprezar. E reconhece-o, sabe quando está na presença dele. O outro não pode renunciar nem reconhecer, porque desconhece o que tal coisa é. É o que acontece nesta história, como se verá.

Trata-se de duas mulheres, uma mãe e uma filha, que conheço desde que esta era ainda uma criança muito pequenina. Respeito-as e admiro-as profundamente. São uma das minhas referências de vida. Duas das minhas heroínas de eleição.

A mãe é funcionária da Secretaria Geral de um Ministério ali para os lados da Baixa, a filha tem uma paralisia cerebral. Para quem não saiba, trata-se de uma lesão das células cerebrais que comandam a parte motora, e que ocorre durante o parto ou no período peri-natal. Afecta a parte motora, nomeadamente, consoante os casos, o andar, a motricidade ao nível dos membros superiores, a própria motricidade fina, a fala. São pessoas inteligentes podendo ser mesmo excepcionalmente inteligentes, por vezes severamente lesadas na sua independência corporal e mesmo expressão vocal. Não na verbal, porque, vencido o impedimento físico, podem escrever e até muito bem, e até literariamente. Felizmente que existem os computadores, que aqui mostram a vertente humanista da máquina ou de quem a criou, porque são umas maravilhosas extensões para compensar as aparentes “limitações” destas pessoas e anular os problemas da comunicação. Esta menina, que já passou os 30 anos, trabalha em informática no Centro de Paralisia Cerebral, comunica com os seus amigos à distância (trocamos e-mails) por internet e SMS, é vaidosa como qualquer mulher, e desde a adolescência que não dispensa ir à discoteca com os seus amigos, “despedindo” a mãe logo à entrada. Tem um trato sorridente e um temperamento corajoso, uma auto-estima invejável e um optimismo e uma coragem a seguir. É um exemplo.

A mãe tem sido a sua melhor amiga, confidente, companheira, incentivo, ajuda. Mulher de cabeça arejada e livre, nunca permitiu que os condicionalismos a limitassem, e muito menos à filha.

Mas a vida não tem sido um mar de rosas para estas mulheres. Porque a mãe ficou só com a menina desde muito cedo, porque quando a filha deu entrada no hospital para ser operada aos membros ela deu igualmente entrada no hospital porque não conseguiu aguentar a prova e ficou ela própria com o seu corpo retorcido e paralisado numa cadeira de rodas, do que apenas conseguiu recuperar à medida da recuperação da filha. Escrevi sobre isto no meu livro O Corpo e a Tela, transpondo este momento dramático sem alterações para a ficção, assim criando com a realidade crua, um momento ficcional dos mais inverosímeis.

Tem gerido os cuidados com a filha com toda a sensatez e equilíbrio ao longo dos seus exemplares trinta e tal anos de vida profissional na tal Secretaria Geral.

Há dois anos e tal foi-lhe diagnosticado um cancro no seio, depois no fígado, depois no cérebro. Seguiu-se o que todos nós sabemos de ouvir falar: internamentos, operações, quimioterapia, cortisona. Um inferno. Dois tratamentos de quimioterapia em semanas seguidas, uma semana a recuperar forças para os novos tratamentos. Ela tem sido uma guerreira, e acredita e eu também, que mesmo sem espada (é uma guerreira muito bem treinada pela vida) vai vencer a luta. Está há dois anos, obviamente, sem poder trabalhar, por isso a filha, sua companheira de dia-a-dia, foi obrigada, pelas circunstâncias, a dar entrada numa residência, onde, pelo seu excelente temperamento e sorte com as pessoas com que deparou nesse lugar, se adaptou perfeitamente e de onde retribui à mãe toda a força e todo o acreditar que esta lhe deu. Cresceu, cresceu, pelas piores razões, mas não perdeu a oportunidade.

Agora, o senhor secretário da secretaria tal passou esta funcionária a supranumerária, o tal regime de mobilidade, porque a lei assim lho permite, e porque, segundo lhe disse pessoalmente quando ela o quis confrontar com o caso, “está há dois anos em casa sem trabalhar”. Suponho que nas suas fantasias e delírio, a imaginará no terraço a tomar banhos de sol com cocktails de cortisona e químicos misturados no whisky… grande “pedrada”… a de quem tem coragem para fazer uma afirmação destas. O hospital de Santa Maria tem sido a segunda casa dela e a dor de não poder cuidar da filha e fazer a sua vida normal que inclui o seu trabalho, a dor constante desta mulher.

Que entretanto pediu a aposentação, e aguarda com receio o futuro, neste sistema tão desumanizado. Não podemos esquecer que o regime de supranumerário lhe retira um sexto do salário, num momento em que mais do que nunca necessita dele.

Na Secretaria Geral desenha-se um movimento de solidariedade dos colegas para com ela. Não será por acaso. Tantos anos, excelente colega, excelente funcionária, exemplar caso humano. Tamanha injustiça. Mas não sei se isso terá algum peso. Agora, os funcionários são números.

Sempre fui contra o fascismo, mas não nos livrámos dele. Como já foi tantas vezes dito, mudam-se os regimes, mas nem sempre se mudam as mentalidades. Vivemos uma época em que a “democracia” se traduz nisto: cada um é um número, uma personagem plana sem vida pessoal nem interior, e por isso pode ser tratado como um ser de papel, tanto mais valioso quanto mais passível de se traduzir em “papel”: cheques, notas, acções, cartões, facturações.

Esta mulher tem sido, ao longo de trinta e tal anos, uma funcionária exemplar. Agora, obviamente, não o consegue, porque está numa luta de sobrevivência. Penso que qualquer criança compreende isto. Não sei se um Secretário Geral tem as qualidades necessárias para o compreender. Não sei quais são as qualidades necessárias para se ser um Secretário Geral, ou se pelo contrário, a mais valia será ter poucas destas qualidades que fazem do humanóide um Humano. Assim é mais fácil despedir pessoas, passá-las a supranumerários. Havendo uma consciência, a coisa torna-se mais difícil.

Esta “história” mostra como a humanidade está ainda no estágio pré-humano; acredito que estejamos a aproximar-nos rapidamente do humano e que estes sintomas tão graves apenas denunciem, aqui no corpo social, como nos corpos humanos, que a cura se aproxima. Não sou utopista, mas acredito que um dia o ser humano será olhado e tratado como tal, não apenas como número, como agora é moda nesta comunidade tão “tecnológica” onde a tecnologia está ao serviço dos cifrões, não da inteligência nem do bem-estar. Tecnologia por si só, não significa nada, é neutra, e pode tornar-se perversa se estiver instalada num sistema perverso.

Tenho posto a minha pena ao serviço da alegria. Continuo hoje a fazê-lo, para, em nome dela, denunciar a dor.

Gostaria que este senhor secretário geral compreendesse que pessoas não são números, que nem todas as leis são justas e que o seu cargo é um SERVIÇO e uma responsabilidade, não um privilégio, que a função não tem de o transformar numa máquina desumana, mas que acarreta o dever de ser mais responsável, mais “afinado” em relação aos casos individuais, e se quiserem e se a palavra não vos chocar (mas podem substitui-la por outra da imensa e maravilhosa paleta de palavras) mais compassivo. Para dormir melhor e um dia a consciência não o atacar quando vier a estar mais frágil. Porque isso vai acontecer. E nessa altura já não haverá muito a fazer. Os nossos maiores inimigos, a maioria das vezes, somos nós próprios. Por isso desejo a este senhor Secretário Geral e a todos os outros, e a todos os Ministros e pessoas com responsabilidade política e social neste país, o maior bem. E muitos sinos a badalarem nos seus cérebros cada vez que fizerem uma coisa destas. Desejo-lhes sensatez e humanidade. E capacidade de discriminação. E vontade de que assim seja.

* Apesar de se respeitar aqui a privacidade das duas pessoas de quem falo, este texto tem, obviamente, pela delicadeza do tema, a sua aprovação e autorização para publicação.

risoletapedro@netcabo.pt
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