2010-06-09



Risoleta C Pinto Pedro



Quixotes e Dulcineias, espelhos da Humanidade

(A propósito de Quixote, pelo Grupo de Teatro O Bando, encenação de João Brites, música de Jorge Salgueiro)

“[… ] uma prótese é sempre uma mentira na medida que simula o que não é. […] suponhamos que por sortilégio fôssemos capazes de fazer desaparecer todas as próteses e modificações artificiais operadas em todos os Seres Humanos. […] O espectáculo seria dantesco. Seria uma imagem pavorosa - mas seria uma imagem sincera. Seria a expressão visível da alma da Humanidade. […] É por essa razão que o receio da sinceridade é tão grande.”

Thorwald Dethefsen e Rüdiger Dahlke

In: A Doença como Caminho

- Professora, quer?

Foi na minha última aula deste ano lectivo, há dois dias. Uma aluna entra-me na sala com um estranho objecto. Poderia ser uma escultura pós-modernista. Trata-se de uma escola de artes visuais, não seria impossível.

O que é que me era perguntado se eu queria? Um insólito objecto formado por uma pequena placa que parecia metálica, mas que depois percebi ser de madeira pintada da cor de metal prateado, com uma saliência da mesma cor e colada a essa saliência, um salto de sapato. Era, portanto, uma espécie de tacão assente sobre uma placa de madeira fingindo ser metal. Uma cunha. Máscara sobre máscara sobre máscara.

Todo o tipo de próteses, sobretudo as exteriores, e concretamente as que têm como função repor uma mecânica, ou movimento, evocam em mim dolorosas recordações.

Era uma coisa destas que me era oferecida. Todo o meu ser vacilou. O meu ser cultural quis ver no objecto uma representação artística, o meu ser profundo sabia que não o era. Que, ainda que o fosse, não era SÓ isso. Mas ainda perguntou:

- O que é isso? Foste tu que fizeste? É para mim?

- Quer ou não quer?

Assim. Sem mais. Pegar ou largar. Em que iria eu pegar? O que iria eu largar? Tudo em poucos segundos. A eternidade em poucos segundos.

Aceitei. Por não ter alternativa. Ou por não ter sabido encontrar alternativa. Talvez por não a ter. Não a tinha. Sei-o agora.

Explicou-me a aluna, depois de o objecto já estar na minha mão, que o tinham encontrado algures num hospital, juntamente com outras coisas para serem deitadas fora: canadianas e coisas desse género. Ainda bem que o explicou depois de eu o ter na minha mão. O irreversível. Assim senti o momento. Se o tivesse feito antes, talvez tivesse recusado.

Percebi que se tratara de uma incursão em grupo, mas estava tão perplexa que nem perguntei em que hospital, nem o que tinham ido lá fazer. Nada. Ela estava fascinada, como quem acabou de encontrar um tesouro e aquilo que me oferecia era um objecto desse tesouro. Quase tão precioso como foram para mim, em criança, os mais raros berlindes. Era. Agora sei.

Ficámos assim. Às vezes o mundo é demasiado para mim, esmaga-me, e apenas o silêncio me salva.

No dia seguinte (ontem, porque hoje, dia em que escrevo, é domingo) fui ao Teatro da Trindade ver a peça do Bando, fui pelo Bando e muito particularmente pelo Jorge Salgueiro, pela sua música, pelo Criador que é, pelo Ser que é, e pelo respeito, admiração e garantia que anos de trabalho do Bando, num nível de frescura e renovação na continuidade e na coerência do seu projecto, me merecem.

Fui. E que tem isto a ver com o episódio da minha aluna? Tudo. Não sei ao certo o quê, mas tem tudo a ver.

Não sei onde foi o João Brites ou alguém por ele, ou a equipa toda, buscar a cama articulada, os andarilhos, as muletas, as cadeiras de rodas. Mas imagino-os como a minha aluna, todos como crianças inocentes escolhendo entusiasmadas por entre uma parafernália de objectos destes, com a alegria de meninos que encontraram um tesouro, e sem juízos de valor que apenas vêm do medo, escolherem como brinquedos maravilhosos o que eu vejo como objectos de dor.

E trazerem-nos para a aula, para o palco. A aula é um palco.

O palco é uma… aula. O palco pode ser muitas aulas.

No palco, os actores, que são, afinal, bailarinos, tanto se arrastam tropegamente com o apoio destes objectos (são praticamente os únicos objectos de cena, os adereços), como os usam para se elevarem em pontas, para dançar, para se defenderem, para atacarem, como apoio de toda uma série de aventuras que conhecemos. As aventuras de D. Quixote, que são, afinal, as aventuras da humanidade.

Aqui está uma forma moderna de alquimia: pega-se no símbolo que representa o que nos limita, para nos elevarmos. Do metal vil ao metal viril. No sentido mais nobre do arquétipo, aquele que se encontra em todos os homens e em todas as mulheres. Nos homens, frequentemente disfarçado de brutalidade, nas mulheres, frequentemente disfarçado de fragilidade. Mas já não há forma de disfarçar. Em cada Quixote existe uma Dulcineia que salta da cama articulada para onde séculos e milénios a atiraram, e transforma a cadeira de rodas onde quiseram confiná-la, num Rocinante e vai por aí, pelo mundo. Em busca de tudo o que a faça sentir aquilo que é, na sua natureza essencial: a VIDA. Mesmo que tenha de escapar a um sobrinho meio boçal, mesmo de tenha que escapar à família toda, a toda a comunidade e a todos os preconceitos, mesmo que tenha de passar por louca. Com a ajuda da criada, uma Teresa Pança suficientemente louca ou ambiciosa (e não é um certo tipo de ambição uma espécie de loucura?) para a seguir.

Todo este universo de Quixote e Dulcineia, Sancho e Teresa Pança, tem o seu quê de Flauta Mágica, porque de um certo ponto de vista (o do senso comum) o príncipe Pamino e a princesa Tamina são uma espécie de loucos que se expõem a perigos que o ser adormecido na rotina dos dias não consegue compreender. Mas que seriam eles sem um Papagena, sem uma Papagena? Digo, sem o seu lado mais boçal, sem a razão, sem o sentido prático da vida, sem a… matéria?

E que outra coisa são Pamino, Tamina, Quixote e Teresa, senão alquimistas? Transformadores do real desanimado noutro real, esse animado, que o mesmo é dizer-se, com alma. Que às vezes é preciso ir buscar à loucura.

Os actores/bailarinos movimentam-se como bonecos e ostentam suas fascinantes máscaras. No cimo de uma estrutura (pode lá haver peça do Bando sem estrutura?) dois cantores/manipuladores fazem TODAS as vozes. Dramaticamente, satiricamente. As vozes não estão ocultas, estão elevadas. Não são apenas vozes, são assumidos corpos e rostos que acompanham expressivamente as vozes, mas por vezes os corpos dos cantores são assumidamente actores, como quando o cantor se transforma em Apolo. Um Apolo aflitíssimo perseguido por poetas sem inspiração, críticos e musicólogos. É Dulcineia quem o salva. Dulcineia apenas não consegue salvar-se a si mesma dos que não suportam a liberdade dela. Mas é só uma questão de tempo.

Até aqui, Dulcineia foi uma figura de ficção na imaginação de D. Quixote. Agora, pela mão do Bando, passa a ser Quixote a figura de ficção, Dulcineia assumiu corpo e realidade. Durante algum tempo. Este espectáculo foi, para Dulcineia, apenas um ensaio. Algo de importante aconteceu com esta peça do Bando, mesmo sem intenções panfletárias ou ideológicas, algo de novo na História da Arte e do Teatro, que são também a História da Humanidade. Algo aconteceu ali: a esperança de liberdade de todos os oprimidos: idosos, deficientes, mulheres, todos os que, em geral, são vistos como vulneráveis e afinal não são mais do que almas clamando por liberdade de movimentos ainda que os corpos estejam tolhidos, loucos clamando por respeito ainda que todos os desrespeitem, crianças escondidas clamando por inocência, ainda que desde que nasceram lhes digam que são culpadas pelo roubo de maçãs que nunca comeram de um Paraíso que nunca viram mas que têm dentro deles para econtrar quando vomitarem todas as maçãs da culpa. E tudo isto é real, porque afinal, de cadeiras de rodas é possível saírem músicas e risos, e viajar, de camas articuladas podem sair seres que voam, e apoiados em muletas e andarilhos os corpos podem lutar e ser heróis e as almas podem dançar. Estas próteses não mentem, não escondem, transfiguram. Isso já não é da natureza da mentira, mas da natureza do milagre. Tudo é possível aqui, como na música de Jorge Salgueiro.

Este espectáculo é de uma extrema beleza. As máscaras dos bailarinos, a sua movimentação titeresca, à António José da Silva, a admirável versatilidade das vozes dos cantores, a surpresa dos músicos (pianistas, pelo menos “eram-no”, diz um eles, com eloquente humor, num momento de partilha com o público, depois do espectáculo) em cadeiras de rodas (vão entrando um a um no palco, parece que nunca mais param de entrar) têm um pequeníssimo sintetizador onde brincam com os sons da magistral composição delírico-dramática da criatividade de Jorge Salgueiro. Do canto lírico identificável nas citações de clássicos conhecidos, à sua própria personalidade musical num ou noutro momento reconhecível por quem tem ouvido a sua música, à integração daquilo que nos habituámos a identificar como subprodutos da arte musical: o pimba. Mas também sons “Nokia” e uma imensa sucessão de brincadeiras músico/heróico/satírico/poéticas de uma originalidade e sentido de humor que já não me surpreendem. Porque com um sentido estético abrangente como tem Jorge Salgueiro (um compositor que não está preso a cadei(r)as, embora tenha composto esta peça para cadeiras de rodas e sintetizador), tudo está sempre em aberto. E tudo pode acontecer.

Houve momentos em que o incansável histerismo dos actores/bailarinos/marionetas como que congelou e surgiram os seres humanos que ali estavam nos bastidores das máscaras. Nesses momentos de pausa, as “personas” deixaram falar as pessoas. As pessoas deixaram falar as emoções de sangue, e os corações de carne disseram algumas coisas tão sentidas que não consigo reproduzir, mas de que guardo uma que me tocou particularmente acerca das guerras que mantemos no interior dos nossos corpos. Enquanto podemos. Um dia, saltam como tampa e os corpos ficam eles próprios em guerra (a que há quem chame doença), e o mundo.

As lutas que Quixote e Dulcineia histrionicamente nos mostram, são apenas uma exteriorização das lutas que começam dentro de cada um. Na coluna, nos rins, no coração, no fígado, no cérebro, no sangue. Que insidiosamente ali entraram sob a forma de culpa, paralisação e dor. Às vezes (nem sempre) transformam-se em deformações e próteses para que as vejamos melhor. Da plateia (que podem ser falsos palcos) das nossas cadeiras de rodas que são frequentemente os nossos carros, os nossos sofás, os nosso tronos. Nós, os heróis escondidos de nós mesmos: Dulcineias, Quixotes, Sanchos e Teresas Pança. Jogo de enganos, como no contexto de António José da Silva, o autor desta ópera onde nada é o que parece. Jogo de espelhos. Profundamente didáctica é esta peça. Justamente porque não pretende sê-lo. O palco são muitas aulas. Também pode ser vista como divertimento puro. Podemos escolher o Ser que vê: Quixote ou Pança, Dulcineia ou Teresa. Ou levar todos.

Onde? No palco do Trindade, até ao dia 13 deste mês.

risoletacpintopedro@gmail.com

http://aluzdascasas.blogspot.com/



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