UNICEPE

2010-05-19



Risoleta C Pinto Pedro


Indie Júnior

É uma selecção de curtas-metragens do Festival Indie Lisboa, a pensar nas escolas e nas várias faixas etárias.

Fui lá com alunos meus, de uma escola de Artes a nível do secundário. Para além da frescura que é sempre ver uma sala de espectáculos (neste caso o Grande Auditório da Culturgest) repleta de crianças ou de jovens e adolescentes (era o caso), o prazer de proporcionar-lhes o que de melhor se está a fazer ao nível das curtas-metragens. Jovens realizadores de todo o mundo estão aqui representados, alguns estiveram cá pessoalmente para conversar com os alunos e falar sobre a sua actividade. É sempre muito educativo e vale mais do que discursos feitos pelos professores ao longo de um ano inteiro. Vimos sete filmes (O Combate, Manifesto para uma Queda Livre, Os Putos podem Voar, Tábua, O Anão que virou gigante, SMS com 1000 Caracteres e Os Grandes Pensadores).

Não vou falar aqui de cada um, mas daquilo que de alguma forma está presente em todos: para além da melhor ou pior qualidade técnica sobre a qual não me vou pronunciar porque não sou da área, algo sempre presente: a vida (às vezes a morte, uma outra forma de falar do mesmo) e os seus ternos temas: o medo, a coragem, a determinação, a verdade e a mentira, as escolhas. Numa perspectiva de onde, apesar da brevidade dos filmes, a superficialidade esteve sempre ausente.

Leve mas profunda, poderíamos dizer que é esta a forma de tratar os temas. Muitas vezes com humor, mas sem virar costas à essência do que significa estar aqui, inteiro, fazendo escolhas e cometendo erros, mas experimentando e reflectindo, apesar das dores.

No final, os alunos puderam votar no filme de que mais tinham gostado, eu não consegui. Cada um, à sua maneira, tem algo que me encantou. O Manifesto para uma Queda Livre, um filme incómodo sobre o “monstro das duas cabeças” (o tédio e o medo da morte) que nos devora. A propósito do salto em queda livre, a seguinte reflexão: ao saltar preso a uma faixa de segurança, onde é que está o perigo, onde é que está o risco, onde é que está o risco da morte, onde é que está… a vida? Muito desafiador. Fiquei com a sensação serem os textos de Heidegger, mas a ficha técnica passou tão depressa que não pude confirmar. O filme começa afirmando que “se caíres de cabeça para baixo tens imensa sorte, porque ao menos uma vez na vida viste o mundo de pernas para o ar” (interrogo-me eu: as coisas como realmente são?). Isto fez-me lembrar um conto que recomendo, de István Örkény, “Sobre o Grotesco”, in Histórias de 1 minuto, vol 1.

Este filme tem algumas semelhanças com Tábua, sobre um menino marroquino que escolhe, como amor de vida, a prática do skate, Os Putos podem Voar, sobre uma jovem sem-abrigo em Londres e SMS com Mil Caracteres, onde um quase campeão de um concurso de velocidade de SMS , no último momento, sem vacilar, troca a glória da vitória pelo amor e pela liberdade.

Em todos estes filmes, o risco. Igualmente no primeiro: O Combate, mas de uma outra forma, ou as consequências não previstas em que podem incorrer os adolescentes devido à tribal necessidade de se vangloriarem de capacidades que muitas vezes não têm, como forma de se sentirem aceites e integrados num grupo. Isso está também presente quando, no filme Os Putos podem Voar, um adolescente mostra uma tatuagem (colagem) imitando, no pulso, as marcas da auto-mutilação que não aconteceu mas que é preciso mostrar para se sentir pertença.

O Combate, mostra o outro lado da moeda: o risco que pode acontecer quando a escolha não é verdadeiramente interna e consciente, mas quando alguém é impulsionado por imponderadas acções exteriores.

São filmes ao mesmo tempo de uma imensa intemporalidade (O Anão que virou Gigante, Os grandes Pensadores), que reflectem questões de sempre, a auto-imagem, os padrões, a reflexão sobre os grandes temas, mas ao mesmo tempo sob uma forma profundamente actual (os SMS, o skate, etc).

Como curiosidade, a atestar a imensa importância do Youtube: foi através deste canal que o realizador soube da existência deste menino, que de outra forma nunca teria conhecido, que nós nunca teríamos conhecido. Foi lá e fez este magnífico pequeno grande filme sobre esta figura encantadora que é a personagem do filme. Tão real. Porque vivo.

risoletacpintopedro@gmail.com

http://aluzdascasas.blogspot.com/


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