2017-05-10



Risoleta C Pinto Pedro


Um pára-quedas em casa

Um dia ofereceram um pára-quedas à minha mãe. Não sei quem foi, nem a que propósito, a verdade é que isto é verdade, embora a um escritor tenha de se dar muito o desconto do que escreve. Nem tudo é verdade. O que também não quer dizer que seja mentira. É apenas uma outra realidade. Aquela que nasce da imaginação, temperada por uns pós de realidade para lhe dar maior verosimilhança. Se é que aquilo a que chamamos realidade tem alguma verosimilhança. Basta olharmos à volta e vermos o sofrimento do mundo num nível tão excessivo e absurdo que só faz lembrar ficção.

Mas isto é mesmo verdade. Podem perguntar à minha mãe. Tinha eu uns sete ou oito anos e um pára-quedas em casa. Ora lá em casa éramos todos signos de água e nem no ascendente tínhamos ar, mas eu terra, a minha mãe fogo como ainda se nota, graças Deus, e o meu pai... mais água! Que fazem um caranguejo, um peixe e um escorpião com um pára-quedas? Teríamos ali um problema se a minha mãe não tivesse sido visitada pelo fogo da inspiração. Resolveu fazer-me um... vestido! Há lá coisa mais óbvia para o tecido de um pára-quedas aposentado do que um vestido para uma menina? A saia rodada inchada pelo vento da zona ventosa onde vivia, onde à noite no meu quarto virado para os montes e os moinhos ouvia o assobio de Éolo, transformava-se num pára-quedas a aparar as muitas quedas a que era atreita, por andar sempre a correr. Acredito que este providencial e experimente ar no meu vestido me tenha poupado algumas feridas nos joelhos. Também uma outra freguesia mais longínqua, lá no Alentejo alto onde nasci, de Ventosa também chamada, me destinara, premonitoriamente, a este vestido. Fazia, por isso, todo o sentido, quer a oferta do pára-quedas, quer o vestido. Ainda hoje, a passear os cães no piso irregular onde vivo, na zona da Graça, onde caio mais do que gostaria e sem muita graça, me recordo com saudade do meu vestido de pára-quedas. Mas é um facto que não podemos voltar a vestir o vestido de quando éramos meninas, ainda que continuemos ainda a usar algumas das convicções que nessa altura adquirimos e que, se nessa idade nos serviram na perfeição, agora já não dão muito jeito e até nos prejudicam. Mas esse é já outro assunto. O que também nada ajuda, e é mais um argumento contra o acordo ortográfico (ortopédioco???), é escrever como agora nos querem obrigar. Nem me atrevo! Experimentem escrever «pára», terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo «parar», sem o acento, como eles querem: «para», acrescentem-lhe «quedas» e vejam o perigo (para meninas vestidas de ar e pessoas que saltem de aviões) que pode ser a língua nas mãos de legisladores que não lhe conhecem a alma.

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