2014-08-13



Risoleta C Pinto Pedro


A morte do ego



Há quem defenda que o ego deve morrer.

Claro que não sabe do que está a falar.

Fica bem, na new age, falar em morte do ego, dá um ar de desprendimento e santidade.

E sobretudo de ignorância, falta de profundidade, digo, superficialidade.

Porque é fácil atirar com umas coisas para o ar. Mas… perceber-se o que se diz e principalmente assumi-lo, esse é outro assunto. Ego ou o senhor dos Anéis, digo o senhor Saturno, é aquele de nós que nos quer proteger. É por isso que se põe em bicos de pés. É o homem da máscara. É aquele que nos acompanha desde sempre, sabe como passámos as passas do Algarve e NÃO QUER QUE TAL VOLTE A ACONTECER!

Coitado, é um tipo sem fé, aí está. É esse o problema dele. Acredita profundamente e é coerente com a crença, que se ele não nos proteger, a coisa não vai correr bem. Que se corrermos riscos, a coisa não vai correr bem. Que se não lhe dermos ouvidos, a coisa não vai correr bem. É um pequeno e bem intencionado ditador. Como todos os ditadores, que vão fornecer-se de boas intenções ao… inferno, a mais bem fornecida grande superfície de boas intenções. E acrescenta o ego, que se nos expusermos, a coisa não vai correr bem. Em suma, a coisa só vai correr bem se ficarmos sossegadinhos e obedecermos às ordens dele, que sabe muito bem de que precisamos.

Contra todas as evidências, mas enfim. Na verdade a coisa resultou com “algum” sucesso. Estamos cá. Sabe Deus à custa de quê, mas que resultou não podemos negar.

E como conseguiu trazer-nos até aqui, pelo menos aparentemente sãos e salvos, e não gosta de correr riscos, o melhor é manter as mesmas estratégias. Obviamente, com os mesmos resultados.

Acontece que um dia começamos vagamente a sonhar com resultados… diferentes.

É então que decidimos, brilhantemente… matar o ego! E do alto da nossa humildade ficamos muito orgulhosos. Começamos a fazer comparações com os pobres mortais que continuam a ostentar um ego… vivo! O nosso está saudavelmente… morto! Somos mesmo desligados, desprendidos e humildes! O ego ressona suavemente debaixo da morte aparente, muito suavemente para não ouvirmos. Dorme, mas atento aos ratos. Até que um dia… passa um rato e o ego salta. É a ressurreição do ego. Que tem muito mais do que as sete vidas dos gatos.

Para nós é um choque, uma surpresa, uma desilusão. E recomeça tudo. Até fazermos do ego um amigo a quem destinamos um lugar não muito preponderante, mas com gratidão. Fazendo-lhe saber que o dono da casa somos nós. Trabalhou bem, graças também a ele estamos aqui, damos o caminho como tendo valido a pena, mas chegou o tempo de se reformar, descanse, merece. Confie. Fez um bom trabalho, nós estamos vivos e fortes. Chegou o tempo de ele se retirar. Sem deixar de desfrutar da nossa companhia. Um paraíso. Estes argumentos são mais pacificadores. E gastamos menos energia a tentar matar algo que enquanto estivermos nesta dimensão não morrerá. Porque é aqui que vive. As visitas somos nós.

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