2025-12-03
OS ELEMENTOS DO ADVENTO
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OS ELEMENTOS DO ADVENTO Tenho sido apontada, por vezes, como optimista militante. Perante uma situação não agradável, penso sempre, espontaneamente, sem esforço, que poderia ter sido pior, ao contrário dos considerados pessimistas, que acham que tudo lhes acontece, e que não poderia ser pior. Aparentemente assim é, mas na verdade, e pensando bem, parece-me que se trata, precisamente, do contrário. Quando eu penso que poderia ter sido pior, na verdade estou a pensar no pior que poderia ter sido, o que não é um pensamento muito optimista. Pelo contrário, os que acham que tudo lhes acontece de pior, consideram que há imensas possibilidades muito melhores a que teriam direito. Logo, não serão assim tão pessimistas. Num tempo em que nada é o que parece, em que convém ponderar bem aparências e evidências, vale a pena começar a treinar com estas coisas pequenas, ou talvez não tão pequenas, para não cairmos no vício sempre tão actual das convicções rígidas, da crença no aparente, das posições inabaláveis, dos dogmas das opiniões definitivas e eternas. Como temos um laboratório sempre disponível que somos nós mesmos, porque não começar a usá-lo? Não é fácil, nunca é fácil a limpeza das ilusões de que somos cobertos, mas teremos nós alternativa? E o caminho? Ir ao hipocampo, esse campo de memórias que superiormente nos habita, e à amígdala, a rainha das emoções, e a esta salada biológica acrescentar o racional do córtex pré-frontal, e nesta música celestial ou de Natal em que nada é excluído desse eterno nascimento, habita uma melodia que me atravessa quando a transponho e danço, finalmente, com a dor. Dança ampla e grande onde cabem todos os inimigos, que os amigos já estão em nós. Nesse amplexo abro bem os olhos, que me acostumei a ver como órgãos de luz, uma vez que são as suas terminações que levam ao cérebro a informação que permite descodificar a luz em forma e cor. Alguns recentes episódios relacionados com a saúde dos meus olhos, vieram mostrar-me como são, também, não sei em que grau, mas no meu caso em grau determinante, órgãos de água. Nem precisamos de ir ao meu caso, bastará pensarmos que são os olhos duas fontes por onde libertamos, e sob forma líquida, o desgosto. Mas os olhos estão também disponíveis para receber a água. Acerco-me do Presépio e o olhar de fogo do Menino revela-me que os olhos são igualmente órgãos de fogo, pelo menos os dele. Aponta-me, com o olhar, o lago onde nada um pato do seu teatro universal que desdobro todos os anos em cima do piano, e diz-me: «Mergulha literalmente teus olhos em água pura, abertos, de forma repetida, e para além do razoável.» Não parecia fala de Menino, mas num tempo em que já nada se parece com nada, não duvidei. Poderá não haver nenhuma correspondência entre a saúde dos meus olhos e estes banhos profundos no Lago do Presépio ou no meu lavatório, a verdade é que desde que passei a fazê-lo convictamente, nunca mais eles sofreram qualquer tipo de inflamação. Viemos do mar, somos água, e mesmo a luz não a dispensa como instrumento de refracção. Basta olharmos para o arco Íris, filho da água. E Íris, rainha do olhar, deusa do celestial arco das cores e mensageira do Olimpo. Como a Virgem, a Mãe do Presépio, convicções e crenças à parte, aquela que para os cristãos une o céu e a terra dentro do arco que é seu ventre, e isso é belo. Falta-nos ainda o quarto elemento, por isso basta pensar no seu casamento com Zéfiro, o nosso José, vento do Oeste. É neste emaranhamento simbólico que se desfazem, no Natal, os pensamentos dos optimistas e dos pessimistas, apenas ressoando, sem dogmas de qualquer tipo, seja cognitivo, emocional ou memorial, uma música que não vem pela memória, mas pelo mistério do ADN, de que até o Menino Jesus, aposto, é feito. A todos os amigos do Norte, do Porto, da Unicepe, um abraço de Natal. Que os elementos vos abençoem neste tão doce tempo. Apesar de tudo…
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