2025-11-05
LITERATURA E ESPELHO
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Da “Confissão de um assassino”,
de Joseph Roth, transcrevo: «Tirou do bolso esquerdo do seu
colete canelado um pequeno frasco achatado, borrifou-se a si próprio –
lapelas, mãos, gravata azul com pintas brancas – e, de súbito, um doce odor
alastrou-se pelo ar, deixando-me quase aturdido. Era, pensei então, uma fragrância
absolutamente divinal. Não lhe conseguia resistir. E, quando o estrangeiro
resolveu irmos embora e jantarmos juntos, levantei-me num ápice e
obedeci-lhe. Reparem, meus amigos, no quão
cruelmente Deus me tratou ao colocar aquele Lakatos
perfumado na minha primeira encruzilhada. Sem este encontro, a minha vida
teria sido completamente diferente. Lakatos
conduziu-me rumo ao inferno. E até perfumou o caminho.» Foi o que me aconteceu, na
infância, na forma como escolhi a minha companheira de carteira. Era uma
menina que cheirava deliciosamente… a campo! Posso até concretizar: a leite
de vaca e a estábulo. Não tenho maneira de saber se o cheiro era real ou
apenas uma alucinação dos meus sentidos. A menina vivia, realmente, numa
quinta. Era provável que fosse real. Isto acontecia dantes à
crianças: chegarem à escola a cheirarem a vaquinhas, a lareira ou a
tangerinas. Tudo estava mais próximo, e também a Natureza. E também a Vida.
Mesmo num colégio particular, como era o caso, isto podia suceder. A
proximidade daquela menina, digo, do seu aroma, tirava-me da sala de aula e
levava-me para a quinta, a Natureza e os animais. Tudo era mais autêntico, e
também os odores. Hoje, procuro perfumes e essências que me transportem lá:
tangerina, eucalipto, anis… Mas onde eu queria chegar, era
à função de espelho da Literatura. Acontece-me com frequência encontrar, nos
livros que leio, coisas que a minha alma reconhece como minhas. E não apenas
em um, mas em vários autores. António Telmo escreveu «Os meus
livros sabem mais do que eu», asserção com que me identifico totalmente. Mas
Álvaro de Campos afirma algo muito semelhante: «[…] De onde me veio isto? Isto é
melhor do que eu… Seremos nós neste mundo apenas
canetas com tinta Com que alguém escreve a valer
o que nós aqui traçamos?...» Campos vai mais longe, porque
não se limita a afirmar, vai até à interpretação ou especulação, como
preferirem. Em forma interrogativa. Que desconfio ser só para despistar.
Suspeito que ele sabia por que razão não sabia, e quem, por ele, sabia, e por
que razão esse alguém que «escreve», nos cria a ilusão de que somos nós…
usando um espelho como os da antiga Feira Popular, aqueles que aumentam… e já
não somos pequeninos. Eu conhecia este poema de Campos, várias vezes o li ao longo dos anos, mas só hoje, quando o dava a conhecer a um grupo de senhoras num Lar que visito todas as semanas, tendo levado Campos como já levara os outros da troupe, com o intuito de que uma das senhoras, a única que conhecia Fernando Pessoa, de cuja poesia achava que não gostava, passasse a gostar, no que tive sucesso, só neste momento, dizia, algo do sentido deste poema que não consigo explicar e que está para lá das palavras que aqui trouxe, se me abriu como uma revelação. Talvez por causa do espelho, porque quando leio para elas, é como se elas lessem para mim.
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