2025-10-01

UMA DOCE MANHÃ DE OUTUBRO

Risoleta C Pinto Pedro

 

UMA DOCE MANHÃ DE OUTUBRO

É numa doce manhã de Outubro que inicio este texto sobre o romance de Ana Garrido que dá título a esta crónica.

O subtítulo, na capa, acrescenta que se trata de um romance sobre o percurso sombrio e luminoso de Soares dos Reis e percorre três cidades: Porto, Paris, Roma. O livro é editado pela Booklink e apareceu a público em Novembro de 2024, tendo-me chegado às mãos há uns meses. Percorre detalhadamente alguns momentos da vida do escultor, alguns capítulos têm nomes de pessoas, outros de lugares, ainda de acontecimentos e também algumas qualidades titulam estas partes.

Para quem, melhor ou pior, conheça o Porto, esta narrativa é um revisitar especial no espaço e no tempo, acompanhado do escultor que conhece pela obra, e que aqui passa a conhecer, também, pela vida.

O encontro dá-se nas escadas do Codessal, vindo da Academia de Belas-Artes, em São Lázaro, onde o jovem António Soares dos Reis  acabou de prestar provas em escultura. O móbil era obter o pensionato no estrangeiro. É pobre, o aspirante a artista.

Estamos em 1867, tem 20 anos. António vai ter a companhia do leitor no Porto e em Gaia, este vai comover-se com o amor nascente que tem de ficar para trás com a partida para Paris em busca do sonho do escultor, e vai encolerizar-se quando ele é vítima, por inveja, de insinuações torpes sobre  as suas capacidades artísticas e autoria. Saltemos com ele para Paris, até à penumbra do seu pequeno quarto, ou à luz estonteante da cidade, à beira do Sena com companheiros das artes, de cá e de lá, juntando o Sena, o Tejo e o Douro, como muito bem sintetiza a autora. Os medos, as inseguranças e as hesitações provincianas de um recém-chegado, mas também todo um percurso pela Paris das artes daquela época faz-nos apetecer voltar lá, levar o livro e passear com ele como guia turístico especial.

Para consolar o jovem estudante por ter perdido a Exposição Universal de Paris de 1867 que terminara uns dias antes, como proceder? Por pouco, ele e seu amigo Sardinha não viram a Exposição, porque, alegadamente, os bilhetes, que lhes foram oferecidos no âmbito da bolsa, teriam sido mais dispendiosos em data anterior. Cruel, no mínimo excesso de insensibilidade, por uns escudos privar os jovens artistas de uma experiência que teria sido marcante na carreira de cada um. Mas António era um rapaz pobre, tinha de se conformar com o que lhe era oferecido.

Silva Sardinha, o futuro arquitecto, sofreu da mesma tristeza, pela mesma razão. Mas havia Paris. Onde vamos deixar os já futuros artistas e recuar, com a assumida autora, pelo menos disso nos quer fazer crer, à EXPO 92 em Lisboa, grandiosa, e ainda assim não tendo conseguido exceder o número de visitantes da recuada Exposição de Paris. E daqui, salta a narradora, e nós com ela, em elipse, para a pandemia de 2020, a paralisação, o congelamento dos grandes eventos e a impossibilidade de continuar o trabalho de guia turística que fizera em 92, e a deixou só, frente a uma escultura do século XIX, saltando novamente no tempo, para o trabalho do aprendiz de escultor António em Paris. Assim, não podendo exercer a sua actividade de guia, transpõe para o livro o que a ela lhe é vedado.

Conduz-nos então, sem máscaras, à Escola de Belas-Artes, mas também ao atelier de Juffroy, onde o nosso escultor tem autorização para trabalhar. Sem ter a certeza de conseguir entrar na Escola Imperial de Belas-Artes através do concurso que se aproxima, já começa a ocultar o trabalho que tem em mãos, desconfiado de não estar conforme à estética clássica e à temática mitológica que se pratica no atelier. O trabalho vai alternando com a cidade, e vai sendo alimentado pelos passeios na Ilha de Paris e pelo Mercado das Flores, ou nos encontros de sábado do grupo dos quatro jovens artistas de que fazia parte, mas havia espaço e tempo, também, para as saudades da Gaia.

Tudo isto é contemporâneo da renovação de Paris pelo Barão Haussmann, encomendada por Bonaparte III, com os edifícios a serem sucessivamente demolidos, nomeadamente aquele onde vivia António e seu amigo Sardinha, o que os forçou a uma mudança para o hotel Camões.

A entrada na Escola Imperial não se mostrava fácil, a correspondência com a amada de Gaia extraviada devido à mudança de quarto, o segundo Natal aproximou os quatro portugueses pelo frio sentido nos corações à vista da neve que irradiava, bela e indiferente.

No terceiro ano conseguiu a entrada na Escola Imperial Especial de Belas-Artes tendo ficado em primeiro lugar.

Ana Garrido não se limita a seguir Soares dos Reis na sua vida em Paris, cola-se-lhe aos calcanhares e quase aos seus pensamentos, talvez mesmo os conduza, como quando nos diálogos entre os artistas convoca e importância dos sentimentos e da literatura para a criação plástica. Ela quer saber de que moldes nasceu O Desterrado, conhecê-lo por dentro. Nós seguimo-la, não queremos perder nada. Esta guia é especial. Não tem um texto memorizado, deixa-se surpreender, e nós com ela.

Tudo isto num ambiente de crescimento de uma guerra anunciada que aconteceu. O que leva os dois amigos a regressar a Portugal por Baiona, não sem António ter sido detido nessa cidade, por ter desenhado uma paisagem com grades.

Salva-o Ana a tempo do comboio, e leva-o em segurança até Gaia. Depois de o deixar ser mimado pelos familiares e amigos e beijar a talvez namorada, talvez sim,  talvez não, novamente o conduz até Roma, mas antecipa-se ao seu voo para chegar antes dos próprios passos. Hospeda-se no mesmo sítio e procura sentir como ele, na sua hipersensibilidade, com que vai construindo ainda dentro de si, e onde vai projetando, a figura de um jovem desanimado, o desterrado. Ele mesmo. Mas o rosto e o corpo irá ter de empréstimo em Roma. Acompanha-lhe os esboços, assiste às visitas que de Portugal chegam, como Costa Cabral, o embaixador, e os modelos e os mármores e os trabalhadores de Carrara. Olhar profundamente humano, o de Ana, o de António. Imagino até que algum dia o escultor se terá virado para trás sentindo a presença de alguém que não viu. Foi aos piqueniques com ele e aí relembrou todos os piqueniques que já vira nos museus. É difícil, nesta narrativa, separar o atelier da natureza, do museu e da rua. Tudo se mistura.

Em Portugal, entretanto, os governos sucediam-se, mas António andava alheado do que se passava. A beleza e a criação absorviam-no, contudo, a crise mandava regressar os artistas. Faltava um ano para o final da pensão, chegou a ponderar a Academia de Belas-Artes do Porto, mas os seis meses de prolongamento concedidos deram-lhe alento. E entrega-se ao trabalho intensamente. Ana autora e narradora, não indiferente ao que se passa na narrativa, vai reflectindo como quem se mete na cabeça da personagem para no-la explicar, como mais um Natal do desterrado autor do desterrado, cujos companheiros iriam regressar a Portugal sem ele.

Trabalha fabril e em graça, incansavelmente, até à exaustão. Acaba-se o apoio e o dinheiro. Pede ajuda ao embaixador, e de repente… estamos no Porto! O hotel Vincci, a Torre dos Clérigos o Jardim da Cordoaria, o Palácio da Bolsa, a Casa da Música, os Jardins do Palácio de Cristal, novamente com Ana, a guia, chamemos lhe assim. Acabou a pandemia e ela volta aos azulejos de Massarelos, às pinturas de Paula Rego, à oficina de Soares dos Reis.  Agora é à sua própria cabeça que vai buscar o protesto, sobre o desprezo pela obra, sofrido pelos escultores, pelos escritores,  os sacos de pano, as canetas, os isqueiros gravados, o marketing, a sobrevivência dos artistas durante a pandemia.

É irrequieta. Cá estamos com ela no Porto, e com a estátua do Desterrado que «já dera muito que falar». Com o livreiro Manuel da Piedade da Praça da Batalha e o seu amigo Mendes Sequeira, jornalista, de Lisboa, em visita ao amigo, ao Porto e ao Desterrado. Com eles, atravessamos e lembramos com saudade, quase com o cheiro, o Jardim de São Lázaro, a Biblioteca Municipal, antigo convento de Santo António, albergando também a Academia de Belas-Artes com a Galeria de Exposições, onde entramos.

Se o leitor tiver saudades do Porto, de Paris ou de Roma, leia este livro. Se tiver curiosidade pela vida de Soares dos Reis, também. Se quiser saber como nasceu o Desterrado, não hesite, se quiser ler uma romance com uma escrita escorreita e viva, com uma estrutura interessante e inesperada, para além de uma cápsula do tempo transportando-nos a folhas anteriores da história cultural das cidades, nomeadamente da cidade do Porto, então é mesmo obrigatório. E viciante. Uma vez começado, não se consegue parar.

Afinal, recuando com a nossa guia, as rendas tinham sido integralmente pagas ao estudante, o embaixador cumprira o prometido, ele pôde terminar a sua obra tendo-se despedido de Itália regressando por Londres de onde escreveu postais aos amigos. Mas o Porto, a rotina, a falta de encomendas, a falta de dinheiro, o reencontro com a antiga amada já casada, a construção da casa própria e o reequilíbrio económico, com as aulas na Academia, nada ajudou ou no mínimo tudo acentuou a tristeza que nunca se separara dele. Este ser demasiado sensível tinha sempre um aguilhão a que a maldade e a inveja alheia não o poupavam. Havia sempre alguém a pôr em dúvida as suas capacidades e a sua autoria, desta vez... d’O Desterrado. Começava a ser insuportável, mas também isso se dissolveu e houve um casamento e filhos e encomendas e novamente o entusiasmo da criação.

Paralelamente aos acontecimentos, está aqui presente um mundo de artistas, das artes plásticas e da literatura, bem como várias reflexões sobre a concepção da arte, como  «para Taine a obra de arte devia captar a realidade através das linhas essenciais chegando a uma só».

Mas este artista vai continuar a carregar a dor de existir, a dureza da permanente conquista, a sua condição social, como um obstáculo, como um castigo que nunca desapareceu do horizonte. e o impulso auto-destrutivo voltava como ondas da costa agreste do Norte. Uma onda dessas afogou-o com um estampido que ressoa neste livro sobre a criação e por isso sobre a vida. De um homem, de um artista e de um espaço, o seu, que imaginou, criou, onde viveu e trabalhou, que tem passado de mãos para mãos sem que alguém lhe confira a dignidade que Soares dos Reis merece, que todos merecemos. Surpreendentemente, no final da narrativa, a autora volta a confrontar-nos com um cruzamento temporal transportando-nos para o momento da votação, na Assembleia da República, da lei sobre a eutanásia. E deixa no ar o mistério da casa na Rua Luís de Camões, como se algo invisível a transformasse numa desterrada na sua própria terra.


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