2025-08-06
MERCI, MERCIER!
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Em Agosto de 2023, nesta
rubrica, escrevi uma crónica sobre Madrid. Porto, Madrid e Paris são cidades
que eu gosto de visitar e sobre as quais gosto de escrever, pois estão
grávidas de história, de vida e de arte. Porto, Londres e Madrid são sólidas
e acolhedoras, Roma é enigmática, Paris é mais desafiante. Este ano estarei
em Paris durante alguns dias de Julho, que já terá passado quando sair esta
crónica. Estou a antecipar a de Agosto, numa espécie de “déjá-vu” antes de
ter ido, por causa de um livro que encontrei por aqui. Os livros nascem nas
casas como cenouras na horta do menino, lá fora no terraço. Ajuizei Paris como desafiadora,
sobretudo para nós, portugueses, alguns dos quais já confrontados com os
preconceitos acerca das “concierges”. Isto não é xenofobia, nem é uma
acusação de xenofobia, são excepções, mas são factos vividos e não
generalizo. Contudo, as coisas estão a mudar, e no ano passado houve mesmo
episódios em que as pessoas quase se comoveram por saberem que éramos
portugueses. Fiquei comovida, porque adoro a cultura francesa. Isto prova que
qualquer acusação superficial contra qualquer pessoa ou qualquer grupo tem um
estatuto tão provisório que o melhor é sempre pensarmos duas vezes, pelo
efeito definitivo que o nosso julgamento pode ter. Mas não deixa de ter graça
encontrar, no livro de Edmund White, “Paris, Os Passeios de um ‘Flâneur’”,
uma epígrafe que o autor foi buscar a Stendhal: “Se dissesse, como creio, que
a amabilidade é o traço característico dos parisienses, quer-me parecer que
eles se sentiriam ofendidos. «Eu Não quero ser amável!»”. Atualmente é complicado fazer
juízos ou apreciações sobre povos, grupos, nacionalidades, ainda que com boa
intenção, ainda que por graça, sinda que com ternura, pois podem confundir-se
com o pior dos comportamentos racistas e xenófobos que bem conhecemos. Mas de
facto, aquela qualidade que Jaime Cortesão atribui aos portugueses, da
plasticidade amorável, talvez nos seja quase exclusiva. Talvez não seja,
sequer, uma qualidade. Quero dizer, não o será aos olhos de todos. Não o
será, certamente, aos olhos de muitos franceses. Excepto, evidentemente, se
forem eles os alvos desta nossa amorosidade. Aí tudo muda de figura. Mas também não é preciso ir aos
extremos, como nós, portugueses, e eles, franceses, podemos ir: do servilismo
ao desprezo. Nada disto é bom. Mais uma vez, no meio é que está a virtude.
Embora o meio também não ande muito bem visto pelos extremos, que desconfortáveis
com aquela posição intermédia, ora o atiram para um lado, ora para o outro.
Muitas vezes por responsabilidade do próprio meio, porque mesmo este deve, em
momentos próprios, deslocar-se um pouco para o lado que for mais justo e
bondoso, pois o equilíbrio faz-se disso, não da imobilidade. Um caminho que
temos ainda a aprender. Hoje, de madrugada, numa
travessa da zona histórica da capital, onde vivo, passava um carro com o som
do rádio no máximo. Dele saíram três franceses a cair de bêbedos,
simbolizando, de pernas para o ar, como se puseram, a tríade liberté,
égalité, fraternité, que realmente anda pelas ruas da amargura, como são
agora as da nossa cidade, e ficaram junto de uma das várias casas de
alojamento local que actualmente nos polui. Nada contra. O problema, mais uma
vez, está no exagero, no desequilíbrio. Mas voltemos aos franceses. Antes de
entrarem em casa, tudo aconteceu, desde fazerem xixi literalmente no meio da
rua, despirem-se, atirarem com a roupa contra janelas, gritarem e
abraçarem-se, a atirarem-se ao chão, chorarem. Enfim, coisas de bêbados. Não,
não vou dizer franceses, por acaso eram-no, mas no que toca a bebedeira, há
um internacionalismo que poucos deixa de fora. Comecei esta crónica a falar
sobre um livro a propósito de Paris, livro no qual praticamente não cheguei a
entrar, pois não passei da primeira epígrafe. Promete. Folheio ao acaso, abro
na página 52 e leio: «nunca mais tive um único momento de tédio desde que
comecei a escrever livros». A afirmação não é do autor, é a citação de um
escritor prévio à Revolução, Louis Sébastien Mercier, que no século XVIII
defendia a «construção de ruas mais largas (com passeios e latrinas) e
apelava à melhoria das desesperadas condições de vida dos pobres da cidade.».
Gosto deste Mercier, que se teria envergonhado do comportamento dos seus três
compatriotas. Tenho pena de ainda não o ter encontrado no tempo em que muitos
franceses, de Portugal apenas conheciam as concierges. No século XVIII,
Mercier era um homem requintado, apetece mandar para o seu século todos os
“desventuras” de trazer por casa, pois não são apresentáveis, que nos poluem
o século XXI, e pedir-lhe que os eduque, e também aos franceses que vêm fazer
xixi nas nossas ruas, embora queira dar-lhes o benefício da dúvida e
acreditar que se não estivessem bêbedos não o teriam feito. A todos, os meus votos de boas férias, sobre este livro e sobre Paris falarei em Setembro, é que «nunca mais tive um único momento de tédio desde que comecei a escrever livros».
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