“SLOGANS…”
Roberto Merino
Texto do Jornal Sinal Aberto: https://sinalaberto.pt/slogans/
“Portugal não será o Chile da Europa”, era uma frase ou
“slogan”1 que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, se encontrava
pintada ou grafitada nas paredes do país. Afortunadamente, Portugal não foi o
Chile da Europa, apesar de os Carluccis e Kissingers vagarem como abutres em torno do processo
revolucionário, um dos mais importantes momentos históricos do Portugal
moderno!
Não são necessários cartazes nem “outdoors” de dimensões
gigantescas para anunciar que “Portugal não será o Bangladesh”, nem a India,
nem o Paquistão… As alusões a estes países, com os quais Portugal mantém
relações diplomáticas2, envergonham o país e os Portugueses.
Provavelmente, o “Senhor Chega” não consegue dormir e, para conciliar o sono,
decide contar um, dois, três ou mais Salazares…
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Na morte de pessoas ilustres
A morte de Francisco Pinto Balsemão, amplamente destacada na
imprensa e com as respectivas homenagens – que não
discutimos –, ofuscou, sem dúvida a partida de um outro homem ilustre e
exemplar, Álvaro Laborinho Lúcio (1941-2025). Tive sempre por ele um profundo
respeito e admiração, nunca julgando que um dia estaríamos juntos num colóquio,
debatendo Teatro e Justiça, no auditório da Junta de Paranhos, no município do
Porto.
Foi no ano de 2007, quando os meus alunos finalistas de
Teatro da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), tinham encenado comigo uma
versão de um pequeno relato de Bertolt Brecht
(1889-1956) intitulado “O Círculo de Giz de Ausburgo”, texto que se encontra
nas “Histórias de Almanaque”3. A esse relato, juntei diálogos de “O
Círculo de Giz Caucasiano”, peça extensa que explora o mesmo tema central do
relato “A quem pertencem as coisas?”.
No final da representação, realizámos um colóquio com a
participação do público e surpreendeu-me o muito que Laborinho Lúcio sabia de
teatro, de Brecht e, particularmente, daquilo a que chamamos Teatro Épico.
Foi interessante a forma como analisou a minha encenação, destacando os
momentos épicos da representação.
Mais tarde, numa viagem na Ponta Delgada, nos Açores, voltei
a cruzar-me com ele na residência. Nessa altura, eu estava a realizar um
pequeno seminário sobre teatro e, poucos meses antes da sua morte, voltámos a
encontrar-nos no Teatro Carlos Alberto, no Porto. Julgo que muitos de nós não
sabíamos do seu estado de saúde.
Destaco, aqui, fragmentos de uma entrevista para o Diário
de Notícias, em 2 de Setembro de 2019 (sob o título “A
partir do momento em que o juiz diz ‘acabou o julgamento, agora vou refletir’,
é solidão brutal”),em que Laborinho Lúcio confessa a sua paixão pelo
teatro. Vale a pena ler na íntegra: “[…] O que lhe
despertou tanto a atenção para desistir da diplomacia?
O cinema, o teatro e a justiça começam a interessar-me, mas
a justiça no seu todo – até o lado espe[c]tacular da justiça. Eu gostava sobretudo de estudar teatro.
Como é que se interessa pelo estudo de teatro?
Acabei por repetir um ano, para poder ter os exames para
entrar em Direito e nessa altura já estava em Coimbra. Começava-se a discutir a
figura do encenador, se não seria ele o verdadeiro artista, diminuindo a
importância do a[c]tor. Havia um grupo de teatro em
Coimbra – o CITAC – que já fazia muito teatro moderno e isso foi um grande
deslumbramento para mim. Aliás, o meu desejo tinha sido ter ido para o teatro,
mas acabei por ir para a justiça porque, apesar de tudo, era mais seguro e a
família também ficava mais tranquila.”
Nas palavras de Sónia Ramos (ex-deputada do Partido Social
Democrata, autarca em Estremoz) sobre Laborinho Lúcio, registamos: “Perdemos um
Homem bom. Um Homem raro.”
Também partiu o meu vizinho geográfico Adolfo Gutkin (1936-2025)5, argentino,
teatrista, encenador, dramaturgo e docente, a sua presença em Portugal antes do
25 de Abril de 1974 foi fundamental nos grupos em que participou como encenador
e criador teatral.
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Faz e desfaz…
A ciclovia da Avenida da República, em Vila Nova de Gaia,
inaugurada em Agosto de 2024, já foi abaixo! O novo
autarca decidiu eliminá-la. Independentemente das razões, dos prós e dos
contras, pergunto: onde está a responsabilidade autárquica dos gastos públicos?
Paradoxalmente, no “Dia das Bruxas” (31 de Outubro), o ex-Presidente da República (2006-2016), Aníbal
Cavaco Silva, na qualidade de antigo primeiro-ministro (1985-1995), reuniu-se
com os ministros e secretários de Estado que integraram os três governos que
liderou, num almoço de confraternização em Lisboa, assinalando os 40 anos da
primeira posse. Tem piada o facto de termos poucas saudades deste senhor.
Oxalá que a sua reforma – preocupado como ele estava – tenha chegado para pagar
as despesas!
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Notas:
1 – “Slogan” é uma frase curta e apelativa,
muito usada em publicidade ou na propaganda política; palavra de ordem –
do Inglês “slogan”.
2 – Se se pensa que as relações diplomáticas com o
Bangladesh são recentes, é necessário analisar a História, desde a viagem de
Vasco de Gama (no final do século XV) que abriu caminho a esses territórios. As
relações diplomáticas com o Paquistão já cumpriram 75 anos e o restabelecimento
com a Índia foi há mais de 50 anos (ocorreu em 31 de Dezembro
de 1974).
3 – Adolfo Gutkin,
em 1969, resolve viajar para Lisboa, aceitando o convite para
dirigir, então, o Cénico de Direito, o grupo de teatro da Faculdade
de Direito da Universidade de Lisboa. Aí encenou “Volpone”,
de Ben Johnson (1572-1637), obtendo o Prémio da Associação Portuguesa de
Críticos de Teatro e o Prémio da Casa da Imprensa. Como também nos
informa a Wikipédia, nesse ano (1969), de regresso a Buenos
Aires, põe em cena uma nova versão de “Cemitério de Automóveis”,
de Fernando Arrabal, no Teatro IFT e no Teatro Solis de Montevideu.
4 – Os textos de Bertolt
Brecht, incluídos em “Histórias
de Almanaque“, foram escritos ao longo de muitos anos e dão, de início, a
impressão de uma heterogeneidade irredutível: poemas, narrativas que têm como
protagonistas figuras históricas (Giordano Bruno, Francis Bacon, César ou
Sócrates), relatos que se desenrolam em tempos remotos (a Guerra dos Trinta
Anos) ou na idade contemporânea (os últimos combates da Segunda Guerra
Mundial), aforismos e provérbios (como os expressos pelo senhor Keuner), etc. No entanto, como indica a respectiva
sinopse, um motivo central confere unidade e coerência ao volume: o
comportamento dos personagens e as situações dramáticas servem de veículo para
o ensinamento moral, para a destruição de mitos, para a crítica de preconceitos
e para a iluminação de áreas obscuras da história e da sociedade humanas.
5 – Como nos conta a Wikipédia,
Álvaro José Brilhante Laborinho Lúcio (Nazaré, 1941– Coimbra, 2025),
foi um jurista, professor universitário, secretário de Estado e ministro
da Justiça, deputado à Assembleia da
República e escritor português. Na juventude, Laborinho
Lúcio foi actor amador, tendo participado na criação
do Grupo de Teatro da Nazaré.
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Extraído do Jornal Sinal Aberto:
https://sinalaberto.pt/slogans/
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24/11/2025
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Roberto Merino
Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na
universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do
Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então
República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto
(Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até
1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional.
Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal
e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso
Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como
docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti,
desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola
Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional,
trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de
Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre
outros palcos.