AMENDOIM
Miguel Boieiro
Afirmava o meu saudoso amigo Dr. António Cardoso nas aulas de Mentalismo, que proficientemente ministrava na Sociedade Portuguesa de Naturalogia, que a mente tende a fixar, com mais durabilidade, os episódios originais, estranhos, inusitados, surpreendentes e até bizarros que se nos deparam ao longo da vida.
Afinal o normal e corriqueiro é o que fica para trás, não sobrecarregando o nosso “software” cerebral.
Nos exercícios práticos da referida disciplina, ele estabelecia um percurso mental que encadeava factos previamente fixados com os que eram enunciados por uma heterogénea assistência.
Fez isso em Cuba, durante a Brigada Europeia José Marti que ocorreu em 1982.
Os espetadores iam proferindo nomes de objetos díspares numa sucessão rápida, o Cardoso encaixava e logo a seguir, repetia tudo por ordem, do princípio ao fim e do fim para o princípio, numa sequência numérica até 56.
Tal correspondia à idade que tinha na altura.
A propósito, refiro agora este notável facto de disciplina
mental, o qual guardo na minha memória, já lá vão tantos anos.
Mais! Há sete décadas fiquei deveras surpreendido quando vi o meu vizinho hortelão deitar terra sobre as flores daquela ervinha rasteira.
Fiquei depois a saber, que se tratava do amendoim.
Isso buliu, de tal maneira, com a minha lógica de criança,
que ainda mantenho a imagem no meu “disco rígido” cerebral.
Ora a planta do amendoim, a que Lineu atribuiu o nome científico de Arachis hypogaea, da família das Fabaceae, detém essa particular singularidade.
As suas flores, depois de fecundadas, penetram no solo a uma profundidade que pode chegar a 5 cm.
Isso dá-se através de um curto pedúnculo que nasce no caule e que se denomina ginóforo.
Este curioso fenómeno botânico em que a frutificação se desenvolve subterraneamente chama-se geocarpia e o caso do amendoim não será único.
Portanto, as vagens do amendoim amadurecem no subsolo, não
estando, contudo, presas às raízes.
A planta é anual, tem pequenos caules levemente peludos e estende-se por 30 a 50 cm.
As folhas apresentam-se alternadas e são compostas parapinadas com quatro folíolos de formato elíptico.
As pequenas flores são papilionáceas de cor amarela.
Os frutos, à semelhança de todas as leguminosas, são vagens
que podem ter, cada uma, até cinco sementes ovoides envolvidas por revestimento
seco de coloração avermelhada, mas, isso toda a gente sabe.
O amendoim é uma espécie nativa do continente sul americano, sendo outrora completamente desconhecido dos europeus.
Julga-se que já era cultivado pelos ameríndios há cerca de 7 mil anos.
O seu cultivo é pouco exigente, pois os nódulos radiculares da planta abrigam bactérias fixadores de azoto, não necessitando de adubos para se desenvolver.
Precisa apenas de solos leves e bem drenados e de climas quentes, tropicais e subtropicais.
Devido ao razoável valor económico, o amendoim é intensamente cultivado em variadíssimas regiões da Ásia, África, América e Europa.
Os principais produtores são a China, a Índia, a Nigéria, o
Sudão e os EUA.
Os amendoins contêm um alto teor de gordura (óleos polinsaturados, monosaturados e outros), proteínas (mais de uma dezena de aminoácidos), fibras, vitaminas B1, B2, B3, B5, B6 e E, betacaroteno, sais minerais (cálcio, magnésio, fósforo e potássio).
Na área da saúde anota-se as suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, afrodisíacas, estimulantes e reconstituintes.
Fortalece o sistema imunológico, reduz doenças cardíacas,
diabetes tipo 2 e obesidade.
Os amendoins constituem um alimento muito nutritivo e energético.
São consumidos crus, torrados, fritos, moídos, ou em pasta (manteiga de amendoim).
Até as folhas jovens da planta se podem comer.
É apreciável a sua versatilidade culinária na confeção de sobremesas, comidas salgadas e como aperitivos.
O óleo de amendoim é um dos mais utilizados na alimentação e
para fins industriais, sendo o que confere maior valor económico a esta
leguminosa.
No entanto, não há bela sem senão! Os entendidos apontam que se deve ter algum cuidado no seu consumo prolongado.
De facto, o amendoim detém elevado poder alergénico.
Acrescente-se ainda que, quando não se encontra devidamente conservado, gera rapidamente uma substância muito nociva denominada aflatoxina.
Nesse caso, se a ingestão de amendoins produzir sabor
desagradável, devemos liminarmente rejeitá-los.
Setembro de 2025
Miguel Boieiro