2005-07-20
QUARTA-CRESCENTE
Risoleta Pinto Pedro


A NORMALIDADE NACIONAL

É estranho, muito estranho. Até um determinado momento, todos os episódios deste acontecimento são estranhos. Fui levar a minha máquina fotográfica digital, que estava avariada, à sede da respectiva marca. Primeira surpresa: dei com o sítio sem problemas, vi que tinha um parque de estacionamento e resolvi tentar entrar, mas com muito cepticismo: não devia destinar-se a uma simples utilizadora como eu, seria, com certeza, para altos funcionários, administração. À entrada, um segurança convidou-me a entrar, sem restrições. Não me pediu B.I., nem me perguntou onde ia, nem o nome de pai e mãe, nem a idade, nem se tinha cartão gold, nem espreitou a ver se eu trazia algum embrulho armadilhado. Não me olhou como se eu tivesse acabado de sair da penitenciária. Estranho! Não me pediu dinheiro, não me deu uma senha. Nada! Ainda por cima... sorriu. Naturalmente. Entrei e havia... lugares!

A porta de acesso aos serviços era logo ao lado, visível, e coincidia com a explicação que ele me dera. À entrada, havia uma máquina com indicações simples de onde retirei uma senha que saiu logo à primeira e inteira. Tive lugar sentada, numa sala agradável e bem iluminada e esperei pouco. Entreguei a máquina com a garantia e a funcionária não franziu o sobrolho, não a virou de um lado e doutro, não chamou um colega, não me pediu o B.I. ou o cartão gold, nada. Pareceu-me ter achado normal eu ter ido lá mandar arranjar a máquina. Deu-me um papel com um número de telefone e um número de conserto. Disse-me para telefonar em tal dia e indicar o tal número, que por sinal se viam muito bem e não se confundia com trezentos outros números que houvesse no dito papel.

No dia em que deveria telefonar surgiu um problema; também já não era sem tempo: desapareceu-me o papel onde tinha o valioso número. Fiz logo o cenário, imaginei-me, na melhor das hipóteses, a ficar sem a máquina. Pensei: "Ah! Cá está! Afinal, a "máquina"está a funcionar! Isto não era normal, a coisa estava demasiado oleada, corria tudo excessivamente nos carris..."

E repensei: "Ou é, finalmente, o regresso à normalidade, ou é o meu inconsciente, demasiado angustiado, por falta de hábito, com tanta perfeição."

Estava redondamente enganada. A coisa estava destinada a correr bem. Mesmo sem papel, mesmo sem número, mesmo sem hábito. Correu bem. Até... quase ao fim.

Devolveram-me a máquina sem me pedirem o número de contribuinte, sem me dizerem que afinal tinha que pagar o arranjo porque a garantia não sei quê... nada!

Tudo muito estranho.

Durante alguns dias não me atrevi a usar a máquina. Sabia lá se funcionava, sabia lá se explodia.

"Tripensei": "primeiro publico o texto. Depois logo se vê. Este sonho já ninguém me tira.

Depois, tive que usar a máquina. Não funcionou. Estranhei. Estava a começar a habituar-me ao excepcional. Voltei lá. Correu tudo da mesma maneira, mas desta vez não perdi o papel do número. Fui lá buscar a máquina. Não funcionou. Já não estranhei. Voltei lá. Já não era lá. A normalidade estava instalada.

Dirigi-me ao sítio actual. Nem estacionamento, nem sítio para sentar. Operários de um lado para o outro, um barulho imenso, e umas secretárias improvisadas para receber as pessoas. O resto, foi mais ou menos igual, excepto que a funcionária me disse que, na opinião dela, aquele problema devia ser das pilhas e não da máquina, mas que, de qualquer modo, deixasse ficar. Ficou. Fui. Voltei. Num dia de calor enorme. Um dos atendedores apenas atendia as lojas, empresas. O outro estava parado, sabe-se lá porquê. Um terceiro atendia, a um ritmo lentíssimo, uma fila interminável de pessoas cansadas. Um senhor reclamava, muito aborrecido, que várias pessoas lhe tinham passado à frente. E era verdade. Não se percebeu porquê. Não havia água na máquina. Só copos. Recebi a minha máquina. Regressei a casa. Não funcionava. Experimentei as pilhas recarregáveis, como me fora dito pela funcionária do atendimento anterior, embora do departamento técnico nenhuma recomendação tivesse sido feita. Funcionou. Estava tudo normal. Respirei fundo. A realidade é sempre uma coisa tranquilizadora quando sabemos que o Paraíso não depende dos outros. Ou o construímos nós, ou... há sempre uma máquina que não dá água, uma fila que não funciona, uma máquina que avaria, um sistema corrupto, etc. Mas é bom sabermos que até com estes metais pesados conseguimos reciclar o mundo e construir o nosso paraíso privativo onde cabem todos os que souberem... sorrir. De si mesmos. Personagens trágicas ficam de fora.




risoletapedro@netcabo.pt
http://risocordetejo.blogspot.com/


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