2005-04-20
QUARTA-CRESCENTE
Risoleta Pinto Pedro


O poeta Eminescu, a latinidade e nós

      [...]Do eterno ontem aparece/ O hoje perecendo/ E quando um sol no céu perece,/ um outro irá nascendo.// E em perpétuo renascer/ Num só instante finda,/ Pois todos nascem para morrer/ E para nascer ainda.[...]

      Mihai Eminescu, Luceafarul


      Mircea Eliade compreendeu – tal como Eminescu – que não se pode ser universal se não se assume a condição nacional como uma religião universal.”

      Teodor Baconsky


Aqui está, nestas poucas palavras de Teodor Baconsky, a fórmula que esta Europa e este mundo, perdidos na sua globalização desgovernada e desgovernadora, necessitariam para a necessária e indispensável união no respeito do particular e do universal.
Diz, Mircea Eliade, que o que torna grandes Camões e Eminescu, apesar das diferenças, apesar dos séculos que os separam, é ambos terem tido, e continuarem a ter, a capacidade de transformar o real e o desconhecido em experiência.
Para quem lê Camões, nunca mais o mar voltará a ser o mesmo, assim como nunca mais, depois de a sua voz cantar a mulher na beleza da Bárbara escrava, aquela voltará a ser reduzida ao estereótipo da beleza loura. Tal como, quem lê Eminescu, fica para sempre tocado pelo “dever universal, um melancólico desejo de reintegração no Cosmos, de refazer a unidade primordial [...], um sentimento de isolamento metafísico é, especialmente inefável «dor» do romeno – a «saudade» do outro extremo da latinidade.[...]”
Vem isto a propósito de um encontro que decorreu há não muito tempo, na Biblioteca do Palácio de Galveias, promovido pelo Jornal Diáspora, com sede em Lisboa e impressão em Arganil, destinado à comunidade romena e moldava em Portugal. Estive neste primeiro encontro (outros se seguirão) acompanhada de amigos romenos a residir em Lisboa. Destinou-se, esta primeira sessão, à divulgação, junto de romenos, moldavos e portugueses, da obra do poeta Mihai Eminescu, o “Camões” romeno, nascido a 15 de Janeiro de 1850 e falecido a 15 de Junho de 1889, um ano depois do nascimento de Fernando Pessoa.
Foi uma sessão bastante “latina”, a recordar que os nossos homólogos de leste muito se nos assemelham. Ou vice-versa. Não só na língua, que é predominantemente latina, com alguma mas muito menor influência eslava, e também fisionomicamente e na forma de estar: despretensiosa, calorosa, acolhedora. Com lanche no fim e tudo.
Ouviu-se poesia de Eminescu declamada em romeno, onde aqui e ali se encontravam tantas palavras fonética e semanticamente muito familiares, mas ouviu-se também a poesia de Eminescu traduzida para português e declamada por portugueses.
Embora pelo génio e pela qualidade do poeta esta obra não caiba em classificações, é nítido, como em Florbela, o romantismo tardio. Mas não só. Aí está a filosofia, e a mitologia, e a História e a religião. Sob a forma de poesia.
Mircea Eliade, esse outro génio romeno, tendo sido adido cultural em Lisboa durante a 2ª Guerra Mundial, escreveu sobre Camões, a propósito do génio de Eminescu.
Acrescenta ainda que estes dois génios vieram provar que “O universo monumental da latinidade é um «expanding Universe», nunca é o mesmo, não repousa nunca.” Porque, ainda segundo ele, “Comparada às outras estruturas espirituais europeias – germânica, anglo-saxónica, eslava» – a latinidade manifesta-se como a mais rica, a mais complexa, e possuindo uma possibilidade inesgotável de se renovar, de se ultrapassar e de renascer das próprias cinzas. Camões e Eminescu são ilustrações magníficas desta força criadora.”
Termina afirmando:
“... O «génio latino» continua a criar e a aumentar o universo mental da humanidade. Hoje, como outrora, são verdadeiros os versos do poeta romeno Vasile Alecsandri: “Latina ginta e regina/ In lumii ginte mari” (A gente latina é rainha entre as grandes gentes do mundo).
Nunca como hoje, acrescento eu, estivemos tão próximos, os dois pólos latinos europeus. Temos um número incalculável (entre legais e clandestinos) de embaixadores da cultura romena entre nós. Resta-nos agora ver de que forma saberemos potenciar essa riqueza, esse espelho nosso que de tão longe nos chega. Pode começar-se de muitas maneiras; uma delas é conhecendo-lhes a poesia, por exemplo de Eminescu, mas também do fabuloso Marin Sorescu* nosso contemporâneo, ou a obra de Ionescu, ou de Cioran, ou do citado Mircea Eliade. Ou do extraordinário escultor Brancusi, ou a música de George Enescu. Apenas para começar.
É lamentável que Eminescu esteja tão pouco traduzido em português. Apenas Victor Buescu o fez, existindo até hoje uma única edição (bilingue) publicada por ele e Carlos Queiroz em 1950 e republicada em 2000 por três editoras romenas.
Mais recentemente, Dan Caragea traduziu “Luceafarul”, que consta de uma edição multilinguística do poema numa edição romana.

*Muito bem traduzido por vários poetas a partir de um encontro na Casa de Mateus, numa edição que tem por título Simetria coordenada por Egito Gonçalves, na Quetzal em 1997.


risoletapedro@netcabo.pt
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