2016-05-25, quarta-feira, 21.30 horas

lançamento do livro

"Obra poética" de Maria Virgínia Monteiro,

que contém os 13 livros publicado entre 1992 e 2004:



A poeta dirá alguns dos seus poemas e teremos outros cantados por Ivo Machado.
A terminar cantaremos os parabéns pelo 85º aniversário da Autora.


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Palavras de poder

Maria Virgínia Monteiro tem um poder que usa através da sua poesia. Ou será a Poesia que a usa para exercer o seu poder? Seja como for, o efeito é o mesmo: arrancar o leitor ao tempo. Sem contudo deixar de dialogar com ele, o tempo. E o leitor.

Suspende-os e coloca-os frente a frente com poema pelo meio. Traduz a emoção na língua de Garrett de quem é irmã na música, no ritmo, na coloquialidade, nas palavras asas. Na língua de D. Dinis, a quem pede a voz da amiga que consigo fica na ausência. Na língua de Cesário, um olhar atento e sensível ao real, aquele que não fala, a que é preciso dar voz. Na linguagem da poesia concreta em que as palavras desenham pensamentos vivos. A sua palavra, de inequívoco tom, é o elemento que liga estas linguagens evocadas por uma poesia pessoal e totalmente inconfundível. Só uma poeta com uma tão forte personalidade estética consegue acolher, sem que se perca, a tradição das vozes que lhe sopram do fundo dos tempos, a voz do seu tempo e a sua própria voz, que parece vir de um futuro que no poema se antecipa. Estes poemas aparecidos (mas não nascidos) em 1992, reunidos num único volume, abrangem toda a poesia publicada até 2014.

Treze livros em vinte e dois anos, numa média superior a um livro de dois em dois anos, iniciando-se com A Mulher de Loth e fechando com Canto Quântico.

Desde sempre fascinada com a excepcional qualidade estética desta autora, tive oportunidade e o privilégio de escrever sobre alguns destes livros.

Esta voz que do norte ressoa de forma regular e persistente, é um luxo para quem a recebe. Tenho tido o privilégio de ouvir flauta poética tão pura.

As páginas, onde quer que se abram, estão cheias de música e ritmo.

Não submerge o silêncio, ele bóia entre as letras, nas pausas, nas reticências, nos espaços. Com elegância.

A lente olhar foca, a partir do presente, passado e futuro.

Percebe-se que esta poesia é uma forma de viver. Quando se adquire tal privilégio?

Como desperta nela o olhar laser que concilia e harmoniza a verosimilhança da sinceridade do sentir com a música do dizer?

Ouço-a como um sopro doce muito antigo, a amiga das cantigas dos trovadores. Atualizada e projectada para um tempo que apenas ela e os poetas inspirados conseguem ver.

Dá voz às gaivotas, ao mar e a todos os seres que não compreendemos. Glosa-os com uma música misteriosa apenas para nós. Através do seu mais profundo "ser" poético ao mesmo tempo moderno e intemporal. Como escrevi anteriormente: "Uma ponte entre João Roiz de Castelbranco e o século XXI."

Nada, na sua poesia, é pura forma ou puro efeito. Nem uma palavra a mais aí se encontra. Mesmo a forma, quando aparentemente se destaca pelo visualismo que por vezes um processo de original grafismo lhe confere, não é mais do que o conteúdo a extravasar de si mesmo e a exigir um molde que se lhe adeque: afastando palavras e criando, entre elas, silenciosos espaços semanticamente eloquentes.

Dialogam as palavras umas com as outras pelo ar da página, o silêncio branco da folha a separá-las e a afastá-las para que se olhem e se reconheçam. Pela distância. Como espelhos. Em todos os poemas, sem excepção, a música. Volto a repetir. Pelo ritmo, pela sóbria, contida e conseguidíssima rima, ou pelo canto da aliteração. Às vezes é música pura.

E há que falar também da lucidez destes poemas "inteligentes" que discorrem acerca da profunda natureza da condição humana numa discreta, diáfana, mas sólida sabedoria. De livro para livro, a esperada e inesperada surpresa. Esperada pelo talento que lhe conheço, inesperada pela capacidade de sucessivamente me surpreender.

É poeta e sacerdotisa. Mora a sua Musa em desconhecido Delfos, talvez dela mesma. Vive como escreve: na preservação da voz, na expansão do sentir, na ampliação dos versos, na perscrutação da alma.

Concluo como já uma vez escrevi:

"Não sei dizer muito mais. É preciso lê-la. Até que todos os jornais e todos os críticos falem dela e as montras das livrarias a exibam como um padrão poético intemporal e autêntico."

Risoleta C. Pinto Pedro
Abril de 2016