> 2018-04-09, segunda-feira, 18h15::

Apresentação do livro PALAVRAS ALADAS, de Delfina Antunes

Delfina Antunes nasceu no Porto em 1957, onde reside.

Licenciou-se em Medicina, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, sendo Especialista em Saúde Pública.
Colabora a nível pedagógico com o Instituto de Saúde Pública e a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, com a Escola Nacional de Saúde Pública e com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.
Representou a Direção Geral da Saúde junto da OMS e União Europeia para a revisão do Regulamento de Saúde Internacional.
Possui várias Publicações de Trabalhos de Investigação em Revistas Nacionais e Estrangeiras.
Integrou o Projecto Movimento Colectivo de Criadores Dez+Outro, realizado na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira em 1996.
Integrou a página de poesia Entre outros Poetas da Revista As Artes entre As Letras, em 2011.
Participou nas colectâneas de poesia Entre o Hoje e o Amanhã, do coletivo Portugal Poético, em 2011, e na Antologia da Moderna Poética Portuguesa, da Seda Publicações, em 2013.



Prefácio

«Quando as palavras procuram o azul do céu e as águas telúricas»


O poeta é aquele mortal inconformado que desce aos infernos para resgatar os momentos mais felizes que deixou num passado sem tempo, e aí, lavar a sua alma em águas mais límpidas e mais fecundas. E, para isso, ele serve-se do encanto da sua música e do feitiço da palavra para sublimar o mundo e o tempo que semeou pelo mundo. E isto faz dele menos mortal e mais eterno. Acontece que este acto é ao mesmo tempo impessoal e universal, porque, sendo o poeta um representante de deus na terra, na perspectiva filosófica de Ion, ele é porta-voz de toda a humanidade. Assim sendo, ele vive entre a dor telúrica do esquecimento e o azul intangível do céu, tal uma mansarda ‘abrindo os braços aos sonhos’. É para estes sonhos longínquos, mas comuns a todos, que este pequeno livro de Delfina Antunes nos quer despertar, porque, apesar de vivermos em ritmos diferentes, como é próprio da Natureza, o nosso objectivo é o mesmo: reencontrar, a partir da memória, o paraíso da infância perdida numa esperança comum.

Recuperamos, nestes sonhos, um pouco de felicidade para compensar a infelicidade da realidade. Qualquer um de nós, sensível às palavras poéticas, evocadoras e invocadoras, pode reconstruir, «pedra sobre pedra», a infância com uma nova imagem e logo «os lírios voltam a florir na cerca». Esta metáfora é também metamorfose que abre, no leitor/criador, outras flores, outros perfumes, outras cercas, outros espaços, porque, «escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve» (V. Ferreira). E o outro de nós é, sem dúvida, o leitor/criador que continua a ‘escrita’ do criador. Ora, ao ler «Estas palavras aladas», o leitor/criador acaba por partilhar emoções com o autor destes versos. É deste modo que Delfina Antunes se propõe partilhar as suas emoções, oferecendo a cada leitor/criador a possibilidade de se apropriar das suas próprias sensações e reanimar as vivências que estes versos despertam nele, rescrevendo assim o texto na pluralidade que este lhe proporciona. E eis que o poeta «re-descobre o mundo com o olhar da infância», e no-lo entrega em comunhão. Na verdade, Delfina Antunes propõe e o leitor/criador dispõe. Ladear as oliveiras e atravessar o tumulto das águas é assumir o voo da ave para atravessar o deserto do mundo e chegar ao mar, porque mesmo em terra, o mar convida-nos a navegar. E de tanto navegar, um dia acordamos com «a boca cheia de estrelas». Então a noite desaparece no lugar do sonho! E subitamente a caneta treme, mas as palavras tremem ainda mais e fazem estremecer o leitor/criador.

Vemos o nosso mundo com os olhos da memória e essa visão constitui um contexto evocador a partir da contiguidade de percepções e de conhecimentos memorizados. É todo um processo que lhe dá carácter metonímico, posto em marcha por sentimentos e sensações: o azul do mar, os vinhedos durienses, a dor ardente do xisto, o rosto da mãe que deixa saudade, o cheiro do loureiro, a acidez do limoeiro, a ternura das mulheres que florescem a idade do amor.

Na medida em que os lugares, que nós gostaríamos de reencontrar ou de voltar a ver, preenchem mais espaço na nossa vida verdadeira do que aqueles lugares onde nos encontramos efectivamente, todos eles acabam por estar imbuídos de uma áurea de nostalgia melancólica, que transpõe tempo e espaço, numa simbiose onde emoção e sensação se confundem: a casa reconstituída é lugar do lar onde se respira a paz, a floresta dos sentidos é agora uma cidade de muros, os jardins florescem no inverno, com as ameixoeiras brancas a seu lado, porque, numa vida completa, as cinzas sempre regressam.

A função da memória, como a da palavra, é a de ludibriar a ausência, numa espécie de fingimento, preenchendo a carência presente com a imagem passada impregnada de saudade. O rio calado de outrora deixou de ser fonte para desaguar na sua foz, os homens, que traziam o pequeno éden encravado no coração, abriram os olhos ao devaneio, a voz do povo que cantava o fado segurou o tempo até que ele ficou suspenso, graças ao olhar enamorado do poeta. Quando o poeta mobiliza a sua arte de encantar, o tempo fica submerso na sua dupla profundidade do sonhador e do mundo, o Reino Maravilhoso acaba por se tornar num Maravilhoso Reino, na medida em que o espaço deixa de ser geográfico para ser afectivo.

Quando se escreve ou se lê poemas, os dias sombrios calam a solidão. Passamos do mundo construído ao mundo idealizado. Sonhados, o real e o sonho formam ambos uma mesma unidade onde coabitam espaço e tempo. Dentro do livro, o corpo, representado por arabescos, deu lugar «à luz das palavras». A carência do corpo habita agora o esplendor da alma.

Depois de lermos o livro, chegamos à estação da primavera donde partimos. Com a magia da poesia, em todas as noites há uma luz intermitente que passa e perfura o silêncio para nos abrir as portas do dia. E eis que a noite desaparece no lugar do sonho e «a vida presa do corpo» liberta-se nas asas de um condor!

Toda a vida do ser humano é um rio de sombras sem regresso, que não seja o de voltar na primavera «onde tudo recomeça». E então, é quase sempre ao cair da noite que «entram em cena as musas e os duendes», que nos fazem regressar à essência das coisas. E se regressarmos a uma flor, a uma praia, a um vinhedo, devemos rejubilar, porque «A profunda alegria não é a do começo, mas a do fim».

António Oliveira


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