2018-05-28, segunda-feira, 18h15:

Apresentação por Jorge Sarabando do livro de Filipe Chinita 'vermelho eu.colectiva.mente por esse alentejo a.fora'


Leitura de poemas por Ana Almeida Santos






A primeira surpresa com este livro de Filipe Chinita, de apurado gosto gráfico, é a disposição dos poemas, que surgem em cada página como se foram estalactites que gotejam nas grutas da memória, formando pequenas esculturas sempre diferentes. Nesta poesia ouve-se muito o silêncio, ecos desgarrados de solidão, de desespero, de raiva contida, de desamparo, de tempo ardido e, na secura dos dias, a busca incessante da água fresca e limpa do amor e da amizade.

Outra singularidade vem do grafismo das palavras, a pontuação inusitada, a diversidade dos tipos de letra, a representar várias vozes no mesmo fio discursivo. O autor terá o seu critério mas, como leitor, encontro-lhe, além de um desdobramento de significados, a expressão de um ritmo melódico que revela uma certa musicalidade que, pouco a pouco, se vai reconhecendo à medida que ouvimos com mais nitidez uma voz que vem lá da lonjura.

Deste modo nos aproximamos do itinerário poético de Filipe Chinita, cujo alvor se situa nos primeiros anos da Revolução de Abril, no regresso de França para onde emigrou por se recusar a fazer a guerra colonial. Chegavam, então, os dias luminosos da construção de um país novo, o movimento do povo trabalhador, num clamor imenso de liberdade e de justiça, tempo heróico de conquista de direitos e desse bem maior que foi a Reforma Agrária. Veio mais tarde, depois do golpe de Novembro e da Constituição salva no limite, o regresso dos latifundiários, servidos pelos barretos de ocasião. Longos anos de amargor e resistência, de luta, de firmeza, de valentia contra a força bruta, a repressão, ódio, gritos, ameaças, disparos, como os que vitimaram os trabalhadores alentejanos Casquinha e Caravela, como já antes haviam ceifado a vida de Catarina Eufémia. O vermelho eu nasce nessa época de redenção e enfrentamento, em que Chinita foi revolucionário a tempo inteiro. Alguns poemas são povoados de vocábulos despidos de qualquer tonalidade lírica, como reuniões, greves, manifestações, centros de trabalho, tractores, partido, camionetas, panfletos, um pequeno universo de coisas simples, chãs, concretas. Dir-se-á não se vislumbrar ali um halo poético. Mas, justamente, foi Cesário Verde um dos primeiros a introduzir no discurso literário, em versos metricamente perfeitos, de tocante beleza, como em "o sentimento de um ocidental", palavras que se diriam duras e inapropriadas, e o mesmo encontramos em alguns dos mais marcantes poemas de João Cabral de Melo Neto. Na verdade, não há palavras poéticas, podem mesmo ser materiais ásperos, rudes, vulgares, há, sim, voz poética, que medeia e transfigura o real, há um acto poético, que une quem escreve e quem ouve ou lê. Por isso, acontecerá com os leitores mais atentos, como aconteceu comigo, voltar atrás na leitura, porque em algum momento houve algo que nos prendeu, que nos induziu o desejo de uma partilha. O livro tem muitos desses momentos mágicos em que acontece poesia, porque a arte não reproduz o real, revela o que está para além da superfície das coisas e das circunstâncias, lá onde se descobre um lugar de encontro e encantamento. Pode ser uma viagem de autocarro, um tempo de espera, uma casa de camaradas, a lembrança de uma familiar querida. Ou a evocação de um tempo de provações e desespero, como nesse belo texto que é "a amoreirinha".
É o Alentejo que está sempre presente, a sedução da terra, a grandeza da gente, um tempo longo de abandono e miséria de tantos e da opulência de uns poucos, de injustiça mas não de submissão, de sofrimento mas não de lamúria, de humilhação mas também de revolta. Sempre presente o afecto pelas mulheres, a busca do amor, a alegria da fraternidade que brota entre os que têm um ideal comum. Vale bem a pena ler e ter este livro de Filipe Chinita. É uma memória do Portugal de Abril que assim refulge em palavras de luz e beleza.

Jorge Sarabando













































Filipe Jorge Marques Chinita das Neves

Nasço em 11 de Novembro de 1955, na freguesia de Nossa Senhora do Bispo, Montemor-o-Novo. Cresço na aldeia/vila de Escoural onde meus pais já viviam. Volto ao grande pátio da quinta dos pretos onde nasci, entre Montemor e Lavre, na adolescência. Estudo no colégio Mestre de Avis, mas cresço entre proletários agrícolas e isso de.marcou-me para sempre e definitivamente o ser.e a vida.
Escoural, Montemor e Évora constituem o triângulo entre o qual sou alentejano e me faço e formei homem.

Habilitações académicas

Antigo sétimo ano do liceu.
Anos 70 - Curso de 1 ano (dois semestres) no Instituto de Ciências Políticas de Moscovo. De Ciência Política, Economia, Filosofia e Psicologia Social Marxistas. Curso de jornalismo e rádio no mesmo Instituto. Escrita e locução de programa de rádio interno, em língua portuguesa, emitido do próprio Instituto.
Anos 80 - Frequência do curso de Filosofia, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.  Frequência dos cursos de Sociologia/Ciências da Comunicação, Universidade Nova de Lisboa. Cursilho de cinema, no IADE, com António Lopes Ribeiro.

Experiência profissional:

Antes de Abril - Revisor do jornal Diário do Sul, durante curtos meses, sendo ainda menor. Na Picardie (França/Amiens/Corbie) para onde fugira, para não fazer a guerra colonial, trabalho, durante meses, numa fábrica de joalharia, aprendendo os primórdios do ofício.
Depois de Abril - Volto a Portugal nos primeiros dias de Maio. Filio-me (de papel) no Partido Comunista Português, na própria noite da chegada, a Évora, e logo me torno revolucionário a tempo inteiro, no Alentejo, de Maio de 74 até Novembro de 1980.


Em 2004, contribuo para e edição pelo MDM do livro Que o exemplo não se perca, da poetiza Lisete Pinto de Sá.
Em 2005, como forma, de em Novembro, comemorar os meus 50 anos! pretendia editar o livro escrito em 77/78  3º andar jardim suspenso. A pessoa a quem o voltei a mostrar e a quem era dedicado, a psicóloga Maria Clementina Diniz, deu-me permissão para o fazer (apesar de, mais uma vez, nada ter feito para além do seu design e montagem gráfica). Mas voltando a tomar contacto com variados textos organizados em livros vários, que continuavam em suspenso, sem editora e sem que a procurasse, a Maria exigiu-me que "antes dos nossos textos amorosos, publica, por favor, os políticos que são bem mais urgentes e necessários para contar a revolução no teu Alentejo e revigorar a militância". "Entrega o primeiro deles, gente povo todo o dia, ao nosso partido, porque é ele que os deve publicar". E telefonou ela ao José Casanova, como "a pessoa certa para tratar da questão" e fui eu à Soeiro levar-lho em mão. O livro andou perdido, segundo parece, devido à venda da Caminho.
Os camaradas têm muito que fazer, dizia-me ela, ante a minha impaciência. "Espera. Tem calma".
Entretanto, a Maria morre-nos, inesperadamente, em 8 de Março de 2007, sem que houvesse resposta alguma sobre qualquer interesse na edição do mesmo. De 3 a 28 de Outubro desse ano, o Sector Intelectual da DORL leva a cabo, no museu da cidade, a exposição "obras do acervo de arte do Sector Intelectual de Lisboa do Partido Comunista Português" que a Maria tinha entre mãos. As suas duas filhas Isabel e Ana Filipa pedem-me um texto, que se virá a chamar "sonhar de pés fincados em terra" (nota explicativa) que abrirá o respectivo catálogo e que será, também, guião de um pequeno vídeo/filme de homenagem à Maria, fabricado por Helena Alves, alentejana.
Em 2008, contribuo para o lançamento pelas Edições Colibri dos livros O Dilema do professor, formar para quê, de Ana de Almada Saldanha, em Setembro, e no princípio não foi o verbo e outros textos de psicologia, de Maria Clementina Diniz, em Outubro.
Ainda em 2008, após mais uma insistência, o (meu) texto reaparece, e a Editorial «Avante!» resolve editar gente povo todo o dia, texto escrito no essencial durante os anos em que fui revolucionário a tempo inteiro no Alentejo, e que em 81/82, já se encontrava pronto para edição, apesar de nunca ter procurado fazê-lo. O livro veio a sair em Fevereiro de 2009. Peço para o mesmo, um posfácio a Manuel Gusmão, pois, entretanto, havia descoberto, entre os meus papéis, que ele já o havia tido entre mãos em 81/82. Retomando os nossos contactos iniciados em 1975 no nosso Alentejo passamos a encontrar(mo)-nos regularmente para estar, almoçar e falar, até porque o Manuel fez o favor de me acompanhar a apresentar gente povo todo o dia, em quase todos os locais em que foi apresentado.
Na base de um texto escrito no essencial em 1979 negro grão pétreo/negro e pétreo nódulo sobre o assassinato de casquinha e caravela, gente da minha aldeia, vou insistindo se não quer ele trabalhá-lo comigo, actualizando-o e emprestando-lhe o seu cunho de poeta maior, de modo a dele fazermos obra digna de assinalar os 30 anos dessa tragédia, acontecida em 27 de Setembro de 1979. Além do mais, seríamos dois alentejanos a falar de dois outros já mortos, um livro a quatro mãos em que não se saberia onde estaria a escrita de cada um. De apenas dramatizador do texto o Manuel foi cedendo e na sua enorme generosidade passou a co-autor do mesmo. Sem ele não haveria este novo objecto literário, pelo menos tal como é agora. Um gesto comunista!, como uma mui nobre amiga do Manuel, depois qualificará (e nem vos digo o seu nome). E assim foi, conseguimos fazê-lo! E a «Editorial Avante!» resolveu editá-lo. Cantata Pranto e Louvor, em memória de casquinha e caravela, via, pois, a luz do dia, em 1ª edição, em Setembro de 2009, nos 30 anos do assassinato dos mesmos! A 2ª edição sairia ainda em Dezembro.

anos 2010

A Fundação José Saramago, edita, em 2010, antes da morte de José, e contando com a sua colaboração no respectivo prefácio, o livro de João Domingos Serra, que sai, por sugestão do próprio Saramago, com o título Uma família do Alentejo. O livro conta, também, com um posfácio de Manuel Gusmão, que se debruça sobre o texto e o seu papel na génese de Levantado do Chão.
No 1º de Maio de 2010, para festejar o 120º aniversário do mesmo, a «Editorial Avante!» edita a colectânea de poemas MAIO, trabalho, luta incluindo nela um extracto de De luto desfilamos (poema incluído em Cantata, Pranto e Louvor).
Em 2012 publico na Editora Colibri a obra do tamanho das nossas vidas, escrito a duas mãos, em Moscovo, 1976, onde se encontram inscritos aqueles que foram os primeiros poemas que, com 20-21 anos, guardei.
Ainda no mesmo ano, publico, na Editora Página a Página, maior é o povo.aqui é campo maior, 2º volume do que viria a ser uma ‘pentalogia’ sobre aquele Alentejo, a revolução e a reforma agrária, que gente povo.todo o dia inaugurou e que vermelho eu.colectivamente por esse alentejo a.fora, em Abril de 2018 irá terminar.
Em 2011 ainda levantámos do zero! mais uma 'designarte' na Rua do Salitre, que para nada nos viria a servir, pois, em finais de Junho de 2010, e após mais de dez anos a recibos verdes, fiquei sem trabalho! no Alentejo.
Encontrando-me na situação de desempregado desde 1 de janeiro de 2013, após contrato de 1 ano com uma empresa da área da consultoria, em que participei num estado multidisciplinar sobre a fileira da pedra, Portugal pedra a pedra, e até à data da minha passagem a uma reforma ‘antecipada’, em novembro de 2015, para a qual fui atirado pela minha situação de 'desempregado de longa duração', com uma pensão de mensal de 287,07 euros, abaixo de qualquer ‘limiar da pobreza’.
Em Novembro de 2013, publico na editora colibri, publico deste temporal de (te) amar, continuação temporal de do tamanho das nossas vidas, entre os quais, quanto ao tempo de escrita, se virá a situar a(s) mãos.ambas sobre o corpo.(d)o amor, posteriormente editado.
Ainda em 2013, na Editora Pastelaria Estúdios de lisboa, publico enfim! o tal, 3º andar jardim suspenso, origem de tudo! que, se ainda contempla o Alentejo, dele simultaneamente se liberta, juntamente com leonor.leonoreta ensaio de ternura que é publicado na Editora Página a Página a 4 de Junho de 2015.
E se 3º andar.jardim suspenso pode ser visto como o livro de uma só viagem de fim de semana a Lisboa, entre a luta revolucionária, já leonor.leonoreta sendo-o também (mais adiante no tempo) é, antes de mais, uma viagem interior, adentro de mim mesmo.
Em Julho de 2014, na Editora Página a Página, publico o 4º livro sobre o alentejo chão e povo.além do tejo.seiva e sangue para sempre, centrado sobre a reforma agrária.
No derradeiro dia, do ano 2015, publico na Editora Colibri, a(s) mãos.ambas sobre o corpo.(d)o amor. Com esta nona obra poética, completa-se a trilogia fazendo definitivamente cair o pano sobre ‘o nosso tempo de moscovo.ou in.temporal de (te) amar’, caso um dia os publique num só volume, como desde então espero.
Na Editora Página a Página publico, a 24 de Abril de 2018, vermelho eu.colectiva.mente por esse alentejo a.fora, com que termino a ‘pentalogia’ sobre os (meus) tempos de um alentejo ainda em ‘revolução’, fruto da umbilical relação com o alentejo, a luta anti-fascista, e esse tempo único na minha vida, entre 1974 e 1980, em que sendo revolucionário a tempo inteiro fui ou me senti ‘o mais humano’ dos homens, como não mais!
Tenho, ainda e desde há muito, vários/muitos outros livros de poesia, prontos a editar e/ou que já aguardam publicação, além de inúmeros, a que me cabe ainda dar forma definitiva, pois que desde julho, de 2010, editei milhares de poemas escritos ao momento e em directo na minha página de Facebook.


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