2020-05-13, quarta-feira, 19h30:

196º Jantar de Amizade UNICEPE:

"A Premonição de Selene", de Anaas, por Ana Almeida Santos





Anaas – A Premonição de Selene – Excertos (quase) ao acaso

P.22
Deixa-me traduzir a tua língua [cf. http://www.unicepe.pt/lanca7/abc/abc.html]!

P.32
Razão tinha Alice Vieira - "e me protejam nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se misturam"

P.36
Hoje, de manhã cedo, uma folha caiu-me aos pés. Não seria uma folha qualquer, decerto. Lançou-se nos braços do vento e balouçou, numa dança plumada. O mundo deveria parar sempre que uma folha cai... Consigo perceber-lhe o canto das aves, a sombra dos ninhos, o frenesim das abelhas, a dança da brisa - e afinal, o que a prende à árvore, não depende da robustez do ramo.
  O voo da folha é o desprendimento.

P.38
O amor não é para amadores.

P.39
A insónia é um monstro que se alimenta pela combustão da lua

P.40/41
Segue as árvores mais robustas que sentires
e se esse não for o teu norte, desvia-te,
que uma coisa é a coisa do sexo
e outra coisa é o sexo da coisa
(e os passarinhos a quem cantaste
nunca os quiseste na gaiola onde dormiste)

P.43
Entre tabuletas, gentes, parquímetros e caixotes de lixo, encontramo-nos e eu não sabia o que te dizer; e enquanto procurava na carteira o buraco para a fuga, pedi-te lume.
Depois sorri e disse-te que não, não fumava.
Disse-te que te queria beijar.
Não, não foi isso.
Disse-te que tinha lume.

P.47
As vindimas eram uma festa. Todos os rapazes e raparigas trabalhavam alegremente. A Maria também ia. E quando a via numa vinha mais além, lá ia eu, cesto às costas, tesoura na mão. Às vezes, os nossos dedos encontravam-se como gavinhas. Noutras, os socalcos eram tão estreitos que encostávamos os olhos e o coração. Quando os cantares ecoavam longe, beijava-a, e ela corria, esbaforida, uvas pelo chão.

P.52
Os poetas dizem que o amor é a gestação de outro em nós. Então é natural que inventemos o amor, lhe imaginemos cabelos que brilhem com luz própria, uma pele acetinada, e que nos cubra, que nos cubra sim, tal e qual, com boca e olhos de amar.

P.53
Se pudesse voltar, fora das memórias, a um momento da sua vida?  Ahahah. Agora é que são elas. Voltaria a uma madrugada morna em que o luar iluminava o folhelho enrolado nos cabelos da Maria. 
Ó José, queria dizer que agora é que é ela...
Ahahah. Raposa. E não é que é?

P.55
Viemos com bilhete de ida e volta. Sem data nem hora marcada, e é nesse pressuposto que somos eternos a cada dia que passa.






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