2015-03-06, sexta-feira, 19h30:

144º Jantar de Amizade UNICEPE:

Lançamento do livro "Agora sou eu que falo, eu, Gabriela",

de Maria Gabriela Cardoso Fernandes da Costa



video sobre o jantar

Ementa (corporal): sopa de legumes, saladas variadas, Bacalhau lascado em cama de grelos e batatas a murro + carne de porco à alentejana, águas, vinho verde branco, vinho maduro branco e tinto, cerveja, refrigerantes, sobremesas variadas, vinho do Porto POÇAS. Preço: 15,00 €
Após o jantar (cerca das 21h30): entrada livre.

Ementa (espiritual)::
      - algumas palavras de Leonel Cosme, que escreveu o prefácio do livro,
      - palavras da Autora,
      - momento musical: fadista Helena Sarmento, acompanhada por Samuel Cabral (guitarra portuguesa) e Paulo Faria de Carvalho (viola):

        Helena Sarmento editou em 2011 o seu primeiro disco, FADO AZUL e em 2013 o segundo, FADO DOS DIAS ASSIM.
        O seu disco de estreia foi editado para todo o mundo pela prestigiada Sunset France - acontecimento raro para um primeiro disco.
        FADO DOS DIAS ASSIM seguiu o mesmo percurso, tendo sido editado internacionalmente em Setembro de 2014.
        É com as palavras, novas, escritas especialmente para si por joão gigante-ferreira, que tem construído o seu caminho no Fado, num propósito de coerência que, mais do que um projeto no Fado, é uma forma de estar na vida, disso se fazendo fado.
        http://www.helenasarmento.com/
        http://www.facebook.com/helenasarmento
        - participações especiais: Carlos Cunha, Irina Costa e Jorge Gomes da Silva.



Prefácio de Leonel Cosme

IDENTIDADE, PÁTRIA E TERRITÓRIO


Face a este laborioso e estilisticamente incomum trabalho de Gabriela Costa, que logo de início me surpreendeu pelos recursos teóricos que o leitor, induzido pelo título, não esperaria de um testemunho memorialístico, fortemente cunhado pela historiografia, eu não me poderia ficar apenas, ainda que concordante, com estas palavras de Max Webber: "(...) mesmo a visão unilateral de um acontecimento vale como um contributo para a compreensão do real".

E por duas razões imediatas: a primeira, porque não me sendo estranhos os caminhos percorridos pela autora, em Portugal, Angola e Brasil, estava predisposto a dispensar quaisquer suportes teóricos (respeitáveis, com certeza!) avocados para revalidar o posicionamento tético da memorialista, na medida em que previsivelmente iriam repetir que os factos não precisam de ser demonstrados; a segunda razão, porque a "visão" de Gabriela Costa era igual à de muitos milhares de portugueses-angolanos "que se viram de repente desterritorializados e foram em busca de novos rumos, de um novo chão, de uma nova utopia", donde a sua história "acaba por ser o eco de uma história coletiva que diferentes narradores contaram/contam de uma maneira ou de outra, ou simplesmente guardaram na gaveta das suas memórias".

E nesse entendimento, "uma história que faz parte da História e sem a qual ela (a História) não pode mais passar", conquanto particularizada, no seu caso, como uma "história costurada num tempo sem datas, tecida com lembranças que (a) deixam perpendicularmente presa às linhas curvas de um passado que (tenta) resgatar através da memória reavivada na e pela literatura, tendo como pano de fundo os romances Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro, e Lueji: o nascimento dum império (1989), de Pepetela".

E diz o porquê: "A narrativa de Pepetela permite-me navegar nas águas da memória e ir em busca de um tempo perdido lá onde o sol se põe atrás do mar. A de João Ubaldo presentifica a minha realidade no porto que me serviu de abrigo ao fim de uma travessia atlântica, e no qual procuro refazer e repensar as experiências do passado", para dramaticamente justificar: "Eu precisei de me sentir 'sem pátria e sem mátria' para ir em busca dos meus pedaços geograficamente espalhados, para com eles montar o puzzle da minha identidade, no meu chão de abrigo. Afinal, e de acordo com Deleuze e Guattari, a busca da identidade deve ser concebida e aceita como processo, em permanente estado de deslocamento, como travessia, como formação descontínua construída através de sucessivos processos de desterritorialização e de reterritorialização".

O drama da "travessia" entre as duas margens do Atlântico da hoje luso-angolana-brasileira Gabriela Costa é, enquanto "viagem" no rio contínuo da História, semelhante ao de meio milhão de ex-colonos portugueses, já filhos naturais ou adotivos da África, pressionados, pelas convulsões finais do processo da independência, a procurarem, longe, um "ancoradouro" ou "porto de abrigo" onde pudessem provisoriamente aquietar as almas ou, mais do que um providencial paliativo, encontrar um "chão seguro" para onde poderiam esperançosamente transferir as suas raízes de árvores arrancadas do chão original ou também já escolhido, sendo mátria de uns e pátria de outros. E não é esta a força-motriz que anima todos os emigrantes, expulsos ou desencantados do chão natal?

Mas outras interrogações analogicamente se perfilam em forma de metáfora: podem as árvores já adultas ser transplantadas sem risco de vida ou de natureza? E se sobreviverem, manterão ou não as qualidades primigénias que lhes conferiram uma dada característica ou identidade?

Pessoalmente, não sendo ecologista, tenho verificado que existem algumas árvores que aceitam a transplantação, e outras não. Se o condicionalismo resulta da capacidade de adaptação, intrínseca à natureza da espécie, ou das propriedades do chão onde mergulham as raízes é, para mim, ainda um mistério. Mas já verifiquei também que há árvores que permitem a enxertia, face à qual o tronco original se comporta de duas maneiras: umas vezes anula-se, em favor do "garfo" que lhe é imposto; outras vezes aceita a imposição, porém sujeitando-se à "mistura" dos genes, do que resulta que nenhuma das partes manterá a pureza original.

Também como "árvore humana", Gabriela Costa se imagina (sente) como um ser compósito: "(...) me fui construindo como sujeito cultural híbrido, buscando dialogar com os meus eus, sentindo que pertencia aos dois mundos, sem ser totalmente de um ou de outro. E se a Europa me viu nascer e a África me ensinou a viver, hoje, neste outro continente que já faz parte da geografia da minha identidade, sou Arlequim com/sem manto, guardo em mim a brancura inefável do Pierrot, sou o uno e o diverso e posso afirmar com Michel Serres (...): ‘por isso, quem sou desde logo se exprime sem dificuldade: uma mistura, uma confusão bem ou mal temperada, exatamente um temperamento’" - qual uma "árvore" (um tronco) com vários "enxertos"... Igual ductilidade não possuía, mau grado seu, outra expatriada de Angola, a poeta Amélia Veiga, também nascida em Portugal, que no seu livro As lágrimas da memória (2006) ainda chora, retornada ao país natal: "Eu não sou de cá/E nunca fui de lá!".

Já Gabriela Costa porfia libertar-se das angústias do desenraizamento avocando contributos de pensadores e sábios de nomeada e usando um discurso que é ao mesmo tempo académico e literário (ou não fosse ela professora universitária de literatura). Assim consegue administrar os concursos da ciência e da poética como um "cântico" cujo mote é o (saudoso) tempo perdido, o direito de sonhar, a utopia, enfim - mas numa decidida oposição ao "sonho noturno" que, no dizer de Bloch, por ela citado, "teima obsessivamente em olhar para trás, melancolicamente contemplando ruínas".

Se o verso de Manuel Alegre que ela recolhe para epígrafe do seu trabalho já desvela uma pista para a matéria tão sensível que vai abordar,

      Canto a raiz do espaço na raiz do tempo e os passos por andar nos passos caminhados...
logo adiante qualquer ambiguidade se desvanece: "Vim do outro lado do mar hesitante, temerosa, mas ao mesmo tempo, e paradoxalmente, confiante. Nas malas vazias de sonhos lá longe perdidos, as recordações, mantidas à força de as retocar e rearrumar nas prateleiras da memória livres da poeira do tempo, projetam-se sucessivas na tela das minhas esperanças, ansiosas por um recomeçar".

Como é tão diferente esta "viagem" da que fez Álvaro de Campos/Fernando Pessoa entre Beja e Lisboa!
      Não trago nada e não acharei nada. Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
      E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
      Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
      Fui, como ervas, e não me arrancaram.
Significativamente, Gabriela Costa não confunde "os sonhos lá longe perdidos" (quais os duma infância e juventude felizes) com um proustiano "tempo perdido" ou um miltoniano "paraíso perdido". Na verdade, todos os tempos, espaços e caminhadas lhe foram propícios e plenos em África (ou o seu "paraíso perdido"), onde não havia razão nem lugar para uma almejada Utopia ("o que não está em lugar nenhum!"), qualquer que fosse a sua representação onírica: a de Thomas More, de Tommaso Campanella, de Francis Bacon ou a do procurado paraíso terreal da navegação de São Brandão - porque em Angola, ela, assumida caminheira, já tinha descoberto a "terra da promissão" que não era mais uma desiderativa transposição do real para o mítico-visionário, perante o que teria de confessar, no fim, como sonhador da Utopia: "Desejo-o mais do que espero". Em Angola, ela encontrara o que desejava para ser feliz.

Sem angústias existenciais, mas não voltando as costas à complexidade da reterritorialização do ser humano (um biologista talvez acrescentasse: e de outros animais...) e ao aventar um sentido de pertença que pode coincidir ou não com o da identidade, Gabriela "resolve" o dilema, como o faria um positivista não dogmático, encarando uma "construção identitária com vistas à felicidade".

Desta construção, não exclui as "marcas" dos tempos e dos espaços vivenciados (Santo Agostinho disse que "o tempo é o espaço onde decorrem as coisas"): fixando a sua atual "porção de identidade brasileira", não separa do esforço ou contingência da reterritorialização as "porções" do tempo em que "a sua angolanidade falava mais alto do que a sua origem no lado de lá do Atlântico", parecendo que nesta consubstanciação o vínculo à raiz primigénia é o elemento mais frágil ou de menor consistência. Tal é a ideia que dá a referência à conhecida (quanto truncada) afirmação de Bernardo Soares/Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa", pois surge extrapolada de um contexto em que a frase é tão pouco axiomática como duvidosa é a displicência patriótica do resto da afirmação: "Nada me pesaria que invadissem ou doassem Portugal, desde que não me incomodasse pessoalmente". Diga-se que o heterónimo guarda-livros Soares finge de um "despatriado" que seria abominável para o épico Pessoa da Mensagem...

Ora, nem mesmo a língua-mater é, por si só, determinante de uma identidade nacional pelo sentido de pertença que se supõe imanente - o que para Agostinho da Silva (que porventura terá amado tanto o Brasil como amava Portugal, o que não é de espantar porque o Brasil é o único país, além de Portugal, onde um português não se sente estrangeiro) parece linear quando considera que "a nossa pátria é o sítio onde nascemos", sem a abrangência da conhecidíssima locução latina: ubi bene, ibi patria (onde se está bem é a nossa pátria)...

Por outro lado, não é indispensável uma língua (escrita ou falada) para que se gere o sentido de pertença: tem-no até um cão ou um gato; tem-no o "menino selvagem" que, de tempos a tempos, continua a emergir dos recônditos das florestas, onde ganhou a primeira consciência de si e que só se modifica quando, transposto para o mundo dos falantes, adquire uma segunda consciência, produtora de outra identidade que não se sabe até que ponto se torna única, osmótica ou reversiva...

É um facto que se pode amar uma terra sem ser filho dela e ter uma identidade nacional sem amor à pátria. Mas o alto sentido de pertença que se assume por amor ou patriotismo e verdadeiramente define uma identidade só existe quando, num território herdado, conquistado ou consentido, não se é discriminado por causas como o local de nascença, a cor da pele, o estatuto social ou a religião, nem se ouve dizer "tu não és daqui" e se sente que daquele território nunca se será expulso.

Gabriela Costa, com o seu testemunho extraído de três vivências justapostas, sugere-nos que o espírito é transfigurável (um materialista dialético diria mesmo que são as condições materiais que determinam a consciência) e o homem, o único a ser capaz de se reinventar para vencer as "travessias" dos mares e das florestas da vida.

Afinal, é isto que nos comunica, na sua obra Entre dois universos (Guimarães Editores, Lisboa, 1959) um sábio caminheiro chamado Fidelino de Figueiredo, que também "atravessou" o Atlântico para estanciar no Brasil, onde, na Universidade de São Paulo, inspirou uma plêiade de discípulos e admiradores como Soares Amora, Cleonice Berardinelli, Segismundo Spina e Massaud Moisés:
      Filosofias, religiões e artes são aspectos peculiares de cada cultura, não frias e laboriosas construções da razão, têm suas raízes num clima cultural, como a fauna e a flora. Também a vida individual toma conta da forma que dentro desse clima único lhe determinam o temperamento e o caráter. Também numa floresta não há duas árvores iguais.
Certo é que umas resistem às tempestades e queimadas, e outras não. Apenas um clima tropical poderia produzir uma "árvore" resistente e transplantável como a protagonista desta narrativa incomum - que é simultaneamente ensaio, memória e poesia -, na qual também se poderia averbar que, em última análise, a nossa verdadeira pátria é a terra onde desejaríamos ser sepultados. Se esta coincidir com a terra onde nascemos ou fomos felizes e que, contra a nossa vontade, tivemos de largar, então os versos que talvez mais se ajustariam ao termo da "viagem" de Gabriela Costa seriam estes do poeta colombiano Manuel Mejia Vallejo, extraídos de um bilhete-postal que me enviou do Brasil outro "navegador" luso- angolano que, naquela margem do Atlântico, ainda não tinha conseguido refigurar a memória do "tempo perdido" na outra margem do rio da História:
      Si camino siempre hacia adelante,
      Un dia llegaré
      Al punto de partida.
      Asi he sabido que todo
      Camino del hombre
      Es camino de regreso.





Fotografias de Francisco Chico da Emilinha

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